CONTOS DA

AMÉRICA

DO NORTE

O GUERREIRO INVISÍVEL

 

Há muito tempo, as margens de uma enorme baía, vivia um grande guerreiro indígena.

Ele tinha um estranho e maravilhoso poder: o de tornar-se invisível. Era conhecido junto ao seu povo como Vento Forte, o Invisível. Morava com a irmã numa tenda perto do mar. Muitas donzelas queriam casar com ele, porém o guerreiro só se casaria com a primeira que fosse capaz de vê-lo chegar em casa à noite. Muitas tentaram, mas ninguém conseguia.

Vento forte usava um inteligente artifício para testar a veracidade daquelas que tentavam conquistá-lo. Todos os dias, ao entardecer, a irmã passeava pela praia com uma das jovens que desejava ser esposa do guerreiro. A irmã conseguia vê-lo sempre, mas só ela e mais ninguém. Sob a luz do crepúsculo, ao vê-lo aproximar-se de casa, a irmã perguntava à pretendente:

 

- Você está conseguindo vê-lo?

 

E todas mentiam :

 

- Estou, sim!

 

A irmã, então perguntava :

 

- Com o quê ele está puxando o trenó?

 

E elas respondiam:

 

- Com uma pele de alce...

- Com um cajado...

- Com uma corda”...

 

E a irmã logo via que era mentira. Muitas foram as que tentaram e muitas foram as que mentiram.

Vivia na aldeia um grande cacique com três filhas. A mãe das meninas morrera fazia muito tempo. A caçula era linda, amável e todos gostavam dela. Por causa disso, as irmãs mais velhas passaram a ter ciúmes dos seus encantos. A tratavam muito mal. Davam roupas esfarrapadas para que ela tivesse má aparência, cortaram seus longos cabelos negros e jogaram em cima da jovem as brasas de uma fogueira para que ela ficasse marcada. Mas a jovem tinha paciência e mantinha o bom coração, continuando a fazer seus trabalhos com alegria e disposição.

Como outras jovens da tribo, as filhas mais velhas do chefe tentaram conquistar Vento Forte. Mas, como as outras, mentiram e o guerreiro manteve-se afastado delas.

Um dia, a filha mais nova do chefe, com seus andrajos e marcas no corpo, resolveu procurar Vento Forte. Remendou as roupas com pedaços de casca das árvores, colocou os poucos ornamentos que possuía e foi tentar ver o Guerreiro Invisível. Suas irmãs caçoaram dela e no seu caminho até a praia, todos fizeram pilhéria da moça maltrapilha. Mas ela prosseguiu em silêncio.

A irmã de Vento Forte recebeu a jovem com amabilidade e, ao baixar o crepúsculo, levou-a a praia.

O guerreiro não tardou a chegar em casa, puxando o trenó. E a irmã perguntou se a jovem conseguia vê-lo.

 

- Não! – respondeu a jovem e a irmã do guerreiro se surpreendeu muito, pois ela estava dizendo a verdade.

 

A irmã de Vento Forte tornou a perguntar se a jovem conseguia vê-lo agora.

 

- Estou, sim! Ele é maravilhoso! Está puxando seu trenó com o Arco-Íris ! – respondeu a moça, bastante assustada.

 

E a irmã do guerreiro perguntou de que era feito o arco.

 

- Da Via Láctea! – respondeu a jovem

 

Como a jovem tinha dito a verdade da primeira vez o Guerreiro tornou-se visível. A irmã de Vento Forte levou, então, a jovem filha do cacique para casa, preparou um banho para ela, e todas as cicatrizes do rosto e do corpo desapareceram. Seus cabelos cresceram novamente, negros como as asas dos corvos. A moça ganhou bonitas roupas para vestir e ricos adereços. A irmã do guerreiro convidou a jovem a tomar o lugar de esposa na tenda. E logo Vento Forte entrou, indo sentar-se ao seu lado, e dizendo que ela era sua noiva.

No dia seguinte, ela se tornou sua esposa, e passou a ajudá-lo nos grandes feitos. Suas irmãs mais velhas ficaram furiosas e nunca chegaram a saber o que aconteceu. Mas Vento Forte, que sabia da crueldade das duas, resolveu castigá-las. Utilizando seu enorme poder; transformou-as em álamos (que são árvores com flores pequenas, casca rugosa e que fornecem madeira alva, leve e macia). Desde então, as folhas dos álamos tremem sempre, com medo do Vento Forte chegar, mesmo que ele venha tranqüilo, pois recordam de sua força e poder.

E acabou a história.           

O BARCO TERRESTRE

 

O rei de um pais distante proclamou certa vez que daria a mão de sua filha a quem construísse um barco capaz de navegar em terra firme. Três irmãos decidiram tentar a proeza. No dia seguinte, ao nascer do sol, o mais velho foi até a floresta e derrubou uma árvore; mal começou a serrá-la, uma velha lhe perguntou o que ia fazer.

 

- Tábuas! - ele respondeu rudemente.

- Pois que assim seja... - a velha resmungou.

 

Ele se esfalfou o dia inteiro e só conseguiu mesmo fazer tábuas.
Então chegou a vez do irmão do meio, que também se deparou com a velha e lhe disse que ia fazer colheres de pau.

 

- Pois que assim seja… - repetiu ela.

 

O rapaz trabalhou muito e só fez mesmo colheres de pau. O último a tentar foi o caçula. Quando a velha o abordou, contou lhe que pretendia construir um barco terrestre.

 

- Boa sorte! - disse ela.


Ao entardecer, quando Jean estava martelando o último prego, a velha reapareceu.

 

- Só faltam as velas - ela falou.

 

E, vendo que o jovem a fitava desanimado, sem saber como conseguir tanto pano para as velas, ordenou-lhe:

 

- Volte aqui amanhã com todos os trapos que encontrar.

 

No dia seguinte o rapaz acordou bem cedo e rumou para a floresta, levando uma imensa trouxa. Num segundo a velha transformou os trapos em velas, e o rapaz saiu navegando em terra firme. No caminho do palácio se deparou com um homem deitado numa fonte seca.

 

- O que está fazendo aí? - perguntou-lhe.

 

O outro respondeu:

 

- Estou esperando a fonte se encher de novo, pois bebi toda a água que havia. Meu nome é esponja.

 

O rapaz o convidou:

 

- Venha comigo!


Mais adiante encontraram um sujeito lambendo pedras. O caçula perguntou porque ele estava fazendo aquilo. E o homem respondeu:

 

- Elas faziam parte de um forno e ainda tem gosto de pão. Meu nome é Comilão.

E o rapaz o convidou:

 

- Venha conosco.

 

Os três seguiram viagem e logo avistaram um grandalhão movendo as pás de um moinho com seu sopro. O rapaz quis saber porque ele fazia isso. E o grandalhão respondeu:

 

- Meu nome é Soprador.

 

E o rapaz também o convidou:

 

- Venha conosco.

 

Depois arrumaram mais dois companheiros: Bom-de-Ouvido, um velhote que escutava até o ruído de uma folha caindo, e Relâmpago, um rapaz mais veloz que os coelhos.

Quando o rapaz se apresentou no palácio, o rei não se mostrou disposto a lhe dar a mão de sua filha. Assim, encarregou-o de encontrar um homem capaz de esvaziar todos os barris de sua adega.

 

- Isso é fácil!

 

O rapaz confiou a façanha a Esponja, que a realizou com louvor. Mas o rei continuou a pedir:

 

- Agora encontre alguém capaz de devorar cem pratos de comida!

 

Comilão cumpriu a tarefa, dando conta até das migalhas.
Por fim o rapaz teve que encontrar alguém capaz de vencer a princesa numa corrida do palácio até a fonte e da fonte até o palácio. Relâmpago ofereceu seus préstimos e num instante chegou à fonte; vendo que deixara a princesa bem para trás, resolveu se deitar para descansar um pouco e pegou no sono.

Bom-de-ouvido, que ficara com os outros no jardim do palácio, colou a orelha no chão.

 

- O folgado está roncando!

 

Mais que depressa Soprador encheu a boca de ar e soprou, afastando a princesa da fonte e acordando Relâmpago, que ganhou a corrida. O rapaz se casou com a princesa e convidou seus cinco companheiros para morar no palácio pelo resto da vida.

ESTRELA CADENTE

 

Numa noite de verão duas jovens contemplavam o céu estrelado, quando a primeira moça exclamou:

 

- Aquela estrela é a mais brilhante de todas! Eu gostaria de me casar com ela...

 

No dia seguinte estavam apanhando lenha na floresta, quando viram um porco-espinho que escalava velozmente um imenso pinheiro. A primeira moça decidiu pegá-lo, porém, apesar de subir cada vez mais alto, não conseguia alcançá-lo.

 

- Desça! Desça!

 

A segunda Moça gritava, porém ela já não podia ouvi-la.

Quando percebeu que estava no topo da árvore, lá no mundo do céu, a primeira Moça desatou a chorar de medo, pois não se dera conta de que se afastara tanto da terra. Então uma voz lhe disse:

 

- Não chore... Sou Estrela Brilhante, e quero me casar com você.


A primeira Moça ficou radiante e só não gostou quando o noivo avisou:

 

- Aqui você pode fazer o que quiser, menos arrancar um dos nabos que cultivamos, pois isso provocaria uma desgraça.


Apesar de viver feliz com seu marido e com o filho que tivera nove meses depois, a primeira Moça estava sempre imaginando o que aconteceria se transgredisse a restrição imposta por Estrela Brilhante. Até que um dia não resistiu mais a curiosidade e arrancou um dos nabos. Com isso abriu um buraco no mundo do céu através do qual avistou a terra lá embaixo e sentiu uma saudade irresistível de sua família e de sua aldeia. Então colheu um grande feixe de capim, teceu uma corda bem comprida e se pôs a descer, com o filho nos braços. No entanto, a corda não era suficientemente comprida para levá-la até o chão, e ela ficou pendurada no vazio, até perder as forças e se despedaçar na terra distante.

Seu filho, que era feito de matéria estrelar, sobreviveu a queda. Um grande pássaro que o viu cair carregou-o para seu ninho e o criou junto com seus filhotes, dando-lhe o nome de Estrela Cadente.

O menino cresceu depressa e logo estava correndo o bastante para acompanhar os pássaros em seu vôo.

 

- É uma lastima que ele não tenha asas... -  o pássaro suspirava tristemente.

 

Ao se aproximar o inverno, as aves começaram a se preparar para partir rumo ao Sul, onde não sentiriam frio. Sendo impossível fazer a pé uma viagem tão longa, Estrela Cadente falou:

 

- Se me arrumarem um arco e flecha, cuidarei de mim mesmo.

 

Os pássaros fizeram-lhe um belo arco e muitas flechas e se despediram dele.

Estrela Cadente resolveu então seguir o curso de um rio e foi ter a aldeia de sua mãe. Logo na entrada encontrou uma velha e lhe disse:

 

- Vovó, estou com sede.

- Não tenho água, meu filho”, ela respondeu. O monstro do rio engole todos que vão lá!”.

Com a garganta seca, Estrela Cadente decidiu se arriscar. Pediu a velha seu balde de couro de búfalo e sua concha de chifre de búfalo e foi até o rio. Assim que mergulhou a concha na água, um monstro enorme se ergueu, abriu a bocarra e o engoliu.

Na barriga da criatura o jovem encontrou suas outras vitimas, encolhidas de medo.

 

- Vamos sair daqui! - prometeu-lhes

 

E, fechando o punho, esmurrou o flanco do monstro até abrir um buraco; depois o matou e libertou todos os seus prisioneiros.

De volta a aldeia, conduzindo as vitimas que resgatara, dirigiu-se novamente a velha e falou:

 

- Vovó, estou com fome.

- Não posso lhe dar nada para comer, meu filho, ela respondeu. “Sempre que os homens vão caçar, um corvo branco previne os búfalos.

- Não se preocupe, eu vou resolver isso!

 

Estrela Cadente declarou, acrescentando:

 

- Só preciso de uma pele de búfalo e de dois corredores bem velozes.


Ao conseguir o que queria, ordenou aos corredores:

 

- Finjam que atiraram em mim.

 

Depois, cobriu-se com a pele e foi se juntar ao rebanho de búfalos. Quando os dois corredores se aproximaram, o corvo branco voou, gritando:

 

- Corram! Os caçadores estão chegando!

 

O rebanho fugiu na disparada, e os corredores atiraram suas flechas na direção de Estrela Cadente, que caiu como se estivesse morto.

O corvo branco se pôs então a voar em círculos cada vez mais baixos, dizendo:

 

- Por que foi tão lento? Por que se deixou atingir?

 

Estrela Cadente esperou que ele chegasse bem perto e o agarrou pelas asas. Carregando-o triunfalmente, voltou para a aldeia e entregou o pássaro ao grande chefe, que proclamou:

 

- Vou levar este tagarela para minha cabana, amarrá-lo no fumeiro e deixá-lo lá até morrer defumado.


A partir desse dia os habitantes da aldeia mataram tantos búfalos quantos precisavam e nunca mais passaram fome. Para demonstrar sua gratidão, construíram uma bela cabana para Estrela Cadente e escolheram a mais bela moça da tribo para ser sua esposa.
E toda noite Estrela Brilhante baixava do mundo do céu e abençoava a aldeia inteira com sua luz.

A ALMA E O CORAÇÃO DA BALEIA

 

Era uma vez um corvo muito bobo e convencido que voou para bem longe e foi parar no mar.
Exausto de tanto bater as asas, procurou um lugar para descansar, mas não avistou nenhum pedaço de terra no meio de toda aquela água. Ele suspirou, já sem forças para continuar voando:


- Vou morrer afogado...

 

 Nesse exato momento uma enorme baleia subiu à tona, e o corvo, sem pensar duas vezes, mergulhou naquela bocarra aberta.

Foi parar na barriga da baleia, onde, para seu espanto, deparou-se com uma casa muito limpa e confortável, bem iluminada e quentinha. Uma jovem estava sentada na cama, segurando uma lanterna.

 

- Fique à vontade - disse ela amavelmente - mas, por favor, nunca toque em minha lanterna.

 

O corvo, feliz da vida, prometeu que jamais faria tal coisa. A moça parecia inquieta. A todo instante se levantava, ia até a porta e voltava a sentar na cama.


- Algum problema? - o corvo perguntou.

- Não... - ela respondeu - é só a vida... A vida e o ar que se respira.

 

O corvo estava morrendo de curiosidade. Assim, quando a jovem foi até a porta, resolveu tocar na lanterna para ver o que acontecia. E aconteceu que a moça caiu estatelada na sua frente e a luz se apagou.

O mal estava feito. A casa ficou fria e escura, o cheiro de gordura e sangue deixou o corvo enojado. Inutilmente ele procurou a porta para sair dali e, cada vez mais nervoso, começou a se coçar de tal modo que arrancou todas as penas.

 

- Agora é que vou morrer congelado - choramingou, tremendo até os ossos.

 

A moça era a alma da baleia, que a impelia para a porta toda vez que enchia os pulmões de ar. Seu coração era a lanterna acesa. Quando o corvo a tocou, a chama se extinguiu. Agora a baleia estava morta e guardava em seu interior o pássaro intrometido. Depois de muito chorar e pensar, o corvo finalmente conseguiu sair das escuras entranhas e sentou no dorso daquele imenso defunto. Ensebado, sujo, depenado, era uma tristíssima figura.

A baleia morta ficou flutuando no mar até que desabou uma tempestade e as ondas a empurraram para a praia. Quando a chuva parou, alguns pescadores saíram para trabalhar e viram a baleia.

O corvo também os viu e se transformou num homenzinho frio e estropiado. Então, em vez de confirmar que se intrometera onde não fora chamado e destruíra algo belo que não conseguira compreender, pôs-se a gritar:

 

- Eu matei a baleia! Matei a baleia!

 

E assim... se tornou um grande homem entre seus pares.