CONTOS

DE ENGANAR

A MORTE

A TERRA ONDE NINGUÉM MORRERÁ

 

Uma vez um jovem, que morava numa aldeia, sentou para descansar na sombra de uma árvore. Quando olhou para o lado viu uma figura toda vestida de preto. Mas o moço não teve medo e puxou assunto com a tal figura. Durante a conversa ficou sabendo que aquela figura era a Morte. O rapaz ficou em pé e com uma faca na mão, gritou:

 

- Se veio pra me levar vai ter briga! Não quero morrer de jeito nenhum! Tenho muita vida pela frente!

 

A Morte, muito calma, sorriu:

 

- Calma, amigo. Que nervoso é esse! Só estou aqui descansando. Sua hora ainda está longe

de chegar. Um dia eu pego você, mas não vai ser por agora!

 

Disse isso e desapareceu numa nuvem de fumaça. O jovem ficou pensando. Não queria morrer nem quando ficasse velho. Para ele, a morte era uma injustiça. Decidiu que não iria morrer. Ia procurar um lugar quase impossível. Uma terra... Uma “terra onde ninguém morrerá”.

 

- Deve existir um lugar assim! Eu só tenho que encontrar!

 

O jovem abandonou sua aldeia e foi pelo mundo afora em busca da “terra onde ninguém morrerá”.

 

Anda, anda que anda! Anda, vai procurar!

Anda, procura e encontra

A terra onde ninguém morrerá!

 

Pois ele andava e perguntava, para todos que encontrava, sobre a tal terra. Mas ninguém nunca tinha ouvido falar no tal lugar. O jovem teimoso foi em frente. Um dia encontrou um homem velho puxando uma carroça velha. A carroça estava cheia de pedras.

 

- O senhor sabe onde fica a “terra onde ninguém morrerá”?

- Se não quer morrer - respondeu o homem velho – me ajude.

 

E apontou o dedo para longe.

 

- Está vendo aquela montanha? Enquanto não transportar toda aquela montanha com minha carroça, pedra por pedra, terra por terra, eu... e quem me ajudar não morrerá!

- Mas por quanto tempo vai durar isso?

- Mais ou menos cem anos!

- É pouco! Quero viver bem mais! – disse o rapaz.

 

Despediu-se e foi embora.

 

Anda, anda que anda! Anda, vai procurar!

Anda, procura e encontra

A terra onde ninguém morrerá!

 

Até que encontrou um homem muito velho, muito mais velho que o primeiro, com um machado na mão.

 

- O senhor sabe onde fica a “terra onde ninguém morrerá”?

- Se não quer morrer - respondeu o homem muito velho – me ajude.

 

E apontou o dedo para longe.

 

- Está vendo aquela floresta? Enquanto não cortar toda aquela floresta, tronco por tronco, galho por galho, eu... e quem me ajudar não morrerá!

- Mas por quanto tempo vai durar isso?

- Mais ou menos duzentos anos!

- É pouco! Quero viver bem mais! – disse o rapaz.

 

Despediu-se e foi embora.

 

Anda, anda que anda! Anda, vai procurar!

Anda, procura e encontra

A terra onde ninguém morrerá!

 

Até que encontrou um homem muito, muito velho. Muito mais velho que os outros dois juntos. O velho carregava um balde muito, muito velho, cheio de água.

 

- O senhor sabe onde fica a “terra onde ninguém morrerá”?

- Se não quer morrer - respondeu o homem muito... muito velho – me ajude.

 

E apontou o dedo para longe.

 

- Está vendo aquele mar? Enquanto não transportar todo aquele mar com meu balde, pingo por pingo, gota por gota, eu... e quem me ajudar não morrerá!

- Mas por quanto tempo vai durar isso?

- Mais ou menos trezentos anos!

- É pouco! Quero viver bem mais! – disse o rapaz.

 

Despediu-se e foi embora.

 

Anda, anda que anda! Anda, vai procurar!

Anda, procura e encontra

A terra onde ninguém morrerá!

 

E dessa vez ele andou muito. Andou muito mais do que das outras vezes. Até que viu um castelo branco todo enfeitado. O moço foi até lá. Chegou no castelo e bateu na porta. Silêncio. Bateu de novo. Ninguém atendeu. Ele andou pelo jardim do castelo e, perto de uma fonte, encontrou uma moça que o chamou pelo nome. A jovem era linda. A moça mais linda que o rapaz já tinha visto.

 

- Por favor - disse ele - Por acaso sabe onde fica a “terra onde ninguém morrerá”?

 

A moça sorriu:

 

- É aqui! Aqui é a “terra onde ninguém morrerá”! Fique para sempre comigo. Enquanto estiver aqui você vai viver!

- Mas por quanto tempo? – quis saber o rapaz.

- O tempo que você desejar!

 

Era tudo que ele queria ouvir. A partir daquela manhã passou a morar com a moça no castelo. E era tudo maravilhoso: comida farta e da melhor qualidade, roupas finas e elegantes, as bebidas mais inebriantes, música suave e encantadora. E a noite, o rapaz dormia com a bela moça numa cama macia como uma nuvem.  Com lençóis perfumados de alecrim. E o rapaz lembrava da Morte.

 

- Enganei a bandida!

 

Mas o tempo é bicho danado. E corre depressa acabando com tudo.

E o rapaz começou a sentir uma coisa engraçada. Uma saudade da família, dos amigos e da sua aldeia. Teve tanta saudade que falou para moça:

 

- Quero visitar meus parentes... meus amigos... Estou com saudades!

- Por quê? - perguntou ela. - Somos tão felizes!

- Mas eu sinto saudade - explicou o rapaz.

 

A moça bem que tentou convencer o rapaz, mas não teve jeito. Ela viu que estava na hora de revelar a verdade. E falou bem manso para o rapaz:

 

- Não sei se você vai encontrar seus parentes e amigos, pois você já está morando aqui comigo há mais de quinhentos anos.

 

O rapaz arregalou os olhos. Não queria acreditar, mas a moça explicou com tanta verdade que ele se convenceu. Mas era teimoso e insistiu:

 

- Mesmo assim quero voltar para, pelo menos, rever minha aldeia. Quem sabe não encontro por lá um parente?

 

A moça apenas disse:

 

- Está bem! Se você assim quer... vá!

 

Ela deu ao rapaz um cavalo branco e explicou:

- Esse cavalo é mágico. É capaz de galopar mais rápido do que o vento. Mas agora preste muita atenção: nunca desmonte do cavalo e, principalmente, nunca, de jeito nenhum, coma qualquer coisa enquanto estiver fora da “terra onde ninguém morrerá”. Entendeu?

 

O rapaz entendeu. Pegou o cavalo e partiu. Foi viajando e quanto mais viajava mais espantado ficava. O mundo estava completamente diferente! Onde antes existia uma imensa montanha agora era uma cidade. Onde antes tinha uma floresta agora era uma planície. Onde antes existia um mar, o chão estava tão seco que até rachava. Chegando à pequena aldeia onde morava, encontrou uma metrópole grande e muito movimentada. Falou seu nome. Ninguém conhecia. Perguntou sobre sua família. Ninguém mais lembrava. Procurou sua antiga casa. Não existia mais. Desconsolado, o rapaz achou melhor voltar para a moça do castelo na “terra onde ninguém morrerá”. Foi andando, mas sentiu o corpo fraco. Estava cansado, com saudade e com fome. No caminho, encontrou um homem vendendo maçãs. A fome apertou na barriga do rapaz e ele, esquecendo o que dissera a moça, perguntou ao vendedor:

 

- Dá pra me vender umas maçãs?

- Quantas? - quis saber o sujeito.

- Uma ou duas.

- Só isso? Pode pegar. Não vai custar nada. É por conta da casa.

 

O rapaz desmontou do cavalo, escolheu uma maçã e mordeu. Foi quando uma mão fria e forte agarrou sua nuca.

 

- Agora você não me escapa!

 

O vendedor era a Morte! O rapaz sentiu o corpo amolecer e a escuridão tomar conta de tudo.

Adaptação de Augusto Pessôa

O VELHO E A MORTE

 

Era uma vez um velho que não queria morrer. Não gostava da ideia de morrer. Um dia ele encontrou uma fada que viu que estava diante de um bom homem e resolveu lhe dar três pedidos. Três pedidos encantados. E o velho pediu:

 

- O primeiro pedido é: quem sentar na minha caminha só levanta se eu mandar. O segundo é: quem sentar no meu banquinho só levanta se eu permitir. E por último quero que quem entrar na minha sacolinha de dinheiro só saia com minha permissão.

 

A fada fez um gesto mágico e deu os pedidos, mas não entendeu:

 

- Que desejos estranhos! Porque você pediu isso?

- E que eu não quero morrer – respondeu o velho.

 

A fada não entendeu:

 

- E isso vai fazer com que você não morra?

 

O velho deu uma risadinha:

 

- A senhora vai ver...

 

 Passou o tempo e a Morte apareceu para o velho. Era feia. Com cara de caveira. Uma coisa horrível. Aquela coisa medonha apareceu e disse para o velho:

 

- Você está pronto, velho? Chegou a hora de levar você!

- Já tá na minha hora? – perguntou o velho.

- Já, sim senhor! Está na hora de levá-lo! – respondeu a Morte.

 

O velho estava deitado na cama e falou para a danada:

 

- Nossa, Morte! Você veio de longe! Deve estar cansada! Senta aqui na minha caminha e descansa um pouco...

 

A Morte sentou... e quem disse que levantava. Ela ficou presa e gritava desesperada:

 

- Me solta daqui! Me tira daqui, velho!! Me tira daqui, miserável!!

 

E o velho na maior calma respondeu:

 

- A senhora tá muito nervosa! Acho que vou deixar a senhora aí por um tempo para se acalmar!

 

E a Morte gritou:

 

- Me tira daqui! Eu faço o que você quiser!

 

O velho deu uma risadinha e disse:

 

- Vou libertar você! Mas quero ficar por aqui por mais dez anos! Aceita?

 

A Morte aceitou e o velho a libertou. Mas a danada saiu esbravejando.

O tempo passou. Rápido como o vento. E a Morte voltou para levar o velho. Quando o espertalhão viu a danada deu um sorriso:

 

- Oh, a senhora por aqui de novo! Que satisfação!

 

Mas a Morte não estava para brincadeiras:

 

- Não quero saber de gracinhas! O tempo passou e eu vim aqui pra levar você!

 

O outro deu mais um sorriso:

- Nem senti o tempo passar! Mas pode ficar tranquila que eu vou com a senhora! Só quero me despedir de minha mãezinha! Pode ser?

A Morte aceitou e o velho continuou:

- Se quiser pode descansar na minha caminha!

E a Morte:

- De jeito nenhum! Na sua cama eu não sento de jeito nenhum!

- Descanse então no meu banquinho que é confortável por demais! – disse o velho.

 A Morte sentou no banco e quem disse que levantava. A danada nem acreditou:

- O que é isso? Eu estou presa de novo? Me solta daqui, peste! Me tira daqui! Me tira daqui, miserável!

O velho deu um sorriso maroto:

- Ih... a senhora tá nervosa de novo! Vou deixar a senhora aí por um tempo para se acalmar!

- Me tira daqui! Eu faço o que você quiser! – disse a Morte desesperada.

- Vou libertar você se me deixar por aqui por mais vinte anos! Aceita?

 A Morte (que jeito?) teve que aceitar. O velho a libertou e ela saiu xingando muito.

De novo o tempo passou. Passou voando! E a Morte voltou mais uma vez para levar o velho. Chegou e foi logo falando:

 

- Você está pronto?

 

O velho olhou para ela espantado:

 

- Ah... a senhora por aqui? Já passou o meu tempo? Os vinte anos já passaram?

 

Mas a Morte não queria assunto:

 

- Nem adianta que eu não vou descansar! Vamos embora agora que acabou o seu tempo por aqui!

 

O velho parecia tranqüilo:

 

- Claro que vamos! Mas antes eu queria que a senhora me tirasse uma dúvida. Pode ser?

 

A Morte aceitou e o velho continuou:

 

- Eu tenho um compadre que disse que a senhora pode ficar do tamanho que quiser! Pode ficar bem pequena e entrar até numa bolsinha de moedas! Isso é verdade?

- Claro que é! – respondeu a Morte.

 

O velho coçou a cabeça:

 

- Eu não acredito! Ninguém pode fazer isso!

 

A Morte ficou furiosa. Ela se achava poderosa e podia fazer o que quisesse. E o velho pegou sua bolsinha e desafiou:

 

- Ah, é? Então, prove! Quero ver! Entre aqui nessa bolsinha...

 

A Morte fez um gesto mágico, ficou bem pequena e entrou na bolsinha. O velho deu uma risadinha de lado e disse:

- Agora tente sair, coisa ruim!

A danada se agitou para um lado, para outro e não conseguia sair. Desesperada ela disse:

- Não! Não é possível! Você me enganou de novo? Deixe me sair daqui! Você pode viver quantos anos quiser!

O velho se espantou:

- Mas que boa vontade a sua, coisa ruim! Então eu quero viver... PARA SEMPRE!

 A Morte não gostou:

- Para sempre é muito tempo! Para sempre não dá! Você não pode viver para sempre!

O velho estava calmo:

- A senhora é que sabe! Vou deixá-la aí pensando no assunto! E para ajudar vou aquecer suas ideias!

O velho pegou um fósforo, acendeu e colocou a chama embaixo da sacolinha. Lá dentro foi esquentando e a Morte se desesperando:

- Socorro! Socorro! Tá muito quente! Você não pode fazer isso! Eu vou assar que nem um bolo! Ai... ai... Tá bem! Está bem! Você vai viver para sempre!

E o velho deu um grito:

- Então está livre, coisa feia!

A Morte saiu da sacolinha e foi embora. Ela não queria ver aquele velho esperto nunca mais. E diz... que o velho está até hoje andando pelo mundo.