FADAS

E PRINCESAS

A BELA E A FERA

 

Há muito tempo atrás, num reino distante, morava um mercador com suas três filhas. Três moças lindas. Muito bonitas mesmo. Infelizmente, as duas mais velhas não aliavam bondade à beleza. Eram rancorosas, invejosas, maledicentes. Mas a mais nova, ah... a mais nova... era boa como um anjo. Tanto por dentro como por fora. Por isso todos a chamavam de a Bela.

Certa vez, o mercador precisou fazer uma longa viagem de negócios. As filhas mais velhas pediram presentes: queriam as jóias mais caras, as sedas mais raras, os perfumes mais inebriantes. O mercador perguntou a Bela, que era sua filha do coração, o que ela desejava. A moça, que estava satisfeita com tudo que tinha, não sabia o que pedir. O pai insistiu. E Bela, que tinha entre as mãos uma flor, pediu uma rosa. A rosa mais bonita que ele pudesse encontrar. Apenas uma rosa.

O mercador partiu. Resolveu seus negócios e começou sua viagem de volta para casa. Pensava só em sua família e nem percebeu que seu cavalo ia por uma estrada que ele não conhecia. A estrada era cercada de arbustos. À medida que o mercador avançava na estrada os arbusto iam estreitando a passagem como querendo impedir a passagem do mercador. Mas o cavaleiro insistia. De repente, uma tempestade se armou. Raios e trovões pareciam cair na cabeça do pobre homem. O vento soprava querendo levar o mundo. Nesse desespero o mercador só pensava em sua família. Principalmente na sua filha mais querida. E sem perceber, murmurou:

 

- Bela... Ah, Bela...

 

A tempestade se dissipou. O caminho abriu. A uma certa distância o mercador avistou um castelo iluminado e resolveu pedir pousada. Entrou, mas não viu ninguém. Levou seu animal para estrebaria pensando em dormir por lá mesmo. Mas lá também não encontrou ninguém. Voltou e entrou no castelo.

 

- Oh de casa! Tem alguém aí?

 

Ninguém respondeu. O castelo era ricamente decorado. Com lustres de cristal que pareciam feitos de sonho. O homem andou por salas e salões, mas não encontrou ninguém. Até chegar a uma grande sala onde tinha uma mesa comprida com uma ceia posta para uma pessoa. O mercador que estava com fome sentou-se e comeu. Os pratos eram trocados como que por mágica. Depois de alimentado, o homem foi ao andar superior por uma escada de mármore toda decorada em ouro. Entrou em vários quartos a procura de alguém, mas nada! Até que chegou a um quarto onde uma cama enfeitada por um belíssimo dossel parecia convidá-lo a dormir. O mercador tirou sua roupa, deitou-se e dormiu. No dia seguinte acordou sobressaltado. O nobre, dono do castelo, podia vê-lo ali e não gostar. Ou talvez algum criado. Resolveu vestir-se. Mas qual não foi sua surpresa ao encontrar, ao invés de suas roupas, um casaco de veludo, uma camisa de seda e botas de pelica. O mercador vestiu-se. Procurou ainda por alguém, mas não encontrou. Foi a estrebaria, e lá estava seu cavalo. Selado e pronto para a viagem.  Montou e foi saindo. Mas ao passar pelo jardim do palácio, viu uma deslumbrante roseira. E no meio da roseira uma rosa. Magnífica! Era a rosa! A rosa de bela. O mercador desmontou e com muito cuidado colheu a rosa. Mas da haste partida começou a pingar sangue. O homem se assustou, mas ficou tremendo de medo ao ouvir uma voz. Uma voz que parecia vir das mais profundas cavernas:

 

- Ladrão! É essa a paga que me dá pela hospitalidade que dei?

 

O mercador virou-se e viu: o mais terrível monstro que já poderia ter visto. O corpo era de homem, mas a cabeça era de javali. Dois dentes pontudos saiam da boca como chifres. As mãos pareciam patas de urso com garras compridas.

 

- Vai morrer, por essa falta que fez!!

 

O mercador só pensava em sua família. Tinha negócios para deslindar que somente ele poderia resolver. Se isso não acontecesse, sua família ficaria na miséria. O mercador pediu ao mostro três semanas. Três semanas para resolver seus negócios. Depois ele voltaria para morrer. A fera olhou bem nos olhos do mercador e viu verdade no que ele dizia.

 

- Vai ter suas três semanas! Ao cabo delas deverá voltar aqui, ou trazer alguém para morrer em seu lugar!

 

O mercador foi embora muito triste. Ao chegar em casa, as filhas mais velhas vieram correndo pegar seus presentes. E ficaram decepcionadas ao ver que o pai não trazia nada para elas. E com muito inveja ao ver nas mãos do mercador a rosa da caçula. Bela achou seu pai estranho e perguntou o que tinha acontecido. Mas o mercador alegou cansaço. A jovem não acreditou, mas evitou insistir temendo incomodar o pai.

As três semanas se passaram. O mercador resolveu seus negócios. Chamou as filhas e contou o que acontecera no castelo do monstro. As mais velhas se desesperaram:

 

- Vamos ficar na miséria!!! Vamos morrer de fome!!!

 

Bela só pensava em seu pai. E se ofereceu para morrer em seu lugar. As mais velhas aceitaram de imediato:

 

- E claro que ela tem que morrer!! Por causa dela... por causa dessa maldita flor é que tudo está acontecendo!!!

 

Mas o mercador não concordou. Bela foi ao seu quarto para rezar, a fim de encontrar um jeito de resolver o problema. Quando, de repente, sentiu sono. Um sono muito grande e logo dormiu. No seu sono sonhou. Uma voz dizia que ela encontraria um anel que a levaria para onde ela quisesse. Ao acordar, Bela encontrou o anel sobre o travesseiro. Escreveu uma carta a seu pai contado o que faria. Colocou o anel e pediu:

 

- Anel de condão, pelo condão que Deus te deu, eu quero ir ao encontro do meu destino!

 

Fechou os olhos. Quando abriu estava na grande sala. Onde tinha uma comprida mesa com uma ceia posta para dois convidados. Bela sentou-se. Sentia muito medo, mas tentava espantar esse sentimento com a certeza de que estava ali para morrer por seu pai. De repente, ela ouviu um ranger de porta e passos entrando na sala. Era o Monstro que trazia nas mãos um ramo de flores.

 

- Não tema! Nada lhe acontecerá enquanto estiver aqui!

 

O Monstro estendeu o ramo para Bela. A jovem pegou as flores, mas sentia muito medo.

 

- Sinto que tem medo de mim. Mas eu amo-te... amo-te tanto!

 

Aquelas palavras entraram nos ouvidos de Bela e ela teve mais medo que da morte. O Monstro virou-se e ia saindo, quando Bela perguntou quem seria o outro convidado a sentar-se à mesa.

 

- Esse lugar era para mim. Mas como sei que minha figura lhe causa repulsa, vou sair. E só voltarei se assim desejar.

 

Bela pediu que o Monstro sentasse e comesse com ela. E a moça ficou encantada com a delicadeza da Fera, que praticamente lhe dava comida na boca.

Os dias de Bela no castelo do Monstro foram os mais felizes possíveis. A Fera lhe cobria de presentes e delicadezas. Mas Bela começou a sentir um aperto no peito. Era a saudade. Saudade de sua família, de seu pai. Pediu ao Monstro para deixá-la partir. A Fera não queria deixar, mas deu para Bela um espelho mágico. Por esse espelho ela poderia ver tudo que quisesse. A moça pegou o espelho e pediu para ver seu pai. E qual não foi sua tristeza, ao ver seu pai muito doente, quase a morte. Bela suplicou ao Monstro que a deixasse partir.

 

- Pode ir, mas volte daqui a sete dias. Se não voltar quem irá perecer sou eu.

 

Bela colocou o anel e pediu:

 

- Anel de condão, pelo condão que Deus te deu, eu quero ir ao encontro de meu pai!

 

Fechou os olhos. Quando abriu estava no quarto do pai. O mercador ao ver a filha ficou praticamente curado. As irmãs mais velhas ficaram espantadas ao verem Bela. Elas acreditavam que a moça estava morta. E sentiram muita inveja ao ver os riquíssimos trajes da irmã. Bela contou todos os seus dias de alegria no castelo do monstro. As irmãs resolveram então, roubar o anel de Bela para que ela não pudesse voltar ao castelo. Num momento que Bela cuidava de seu pai e tinha tirado o anel para isso, as irmãs entraram correndo no quarto. Inventando uma urgência tiraram Bela do quarto e roubaram o anel.

Sete dias se passaram. Oito... Dez... Bela não encontrava o anel e não sabia como voltar ao castelo do monstro. Uma noite sonhou. A mesma voz dizia que a Fera estava morrendo e que suas irmãs tinham roubado o anel. Ao acordar, Bela correu ao quarto das irmãs.

 

- Manas!! Manas!! Imaginem, perdi meu anel! E aquele que encontrar morrerá daqui a uma semana!!

 

As irmãs devolveram depressa o anel dizendo que tinham acabado de encontrá-lo. Bela colocou o anel e pediu:

 

- Anel de condão, pelo condão que Deus te deu, eu quero ir ao encontro do meu destino!!

 

Fechou os olhos. Quando abriu, estava nos jardins do palácio. Procurou pela Fera, mas não encontrava.  Até que, viu o Monstro caído perto da roseira. Mal respirava. Bela sentiu um aperto no peito. Mas não era a saudade da família. Era diferente. Era amor. Bela amava o Monstro. A moça aproximou-se. Tomou a cabeça da Fera nos braços. Beijou-o e uma de suas lágrimas molhou o rosto da Fera que estava morrendo. De repente uma luz tomou conta de todo o jardim, de todo o castelo, de toda região. A Fera transformou-se num lindo príncipe. O mais formoso que poderia existir. Os arbustos transformaram-se em soldados e criados. E a roseira transformou-se numa fada. O príncipe contou a Bela que tinha sido enfeitiçado por uma bruxa. A fada continuou a história, dizendo que estava ali para ajudar, mas não tinha poder suficiente para acabar com o encanto. Bela reconheceu a voz da fada. Era a mesma voz dos seus sonhos. A fada fez um gesto mágico e trouxe a família de Bela para o palácio. Mas... teve o cuidado de transformar as irmãs de Bela em estátuas de mármore, até que a maldade saísse de seus corações. Bela então, casou-se com príncipe e eles viveram felizes para sempre.

Adaptação de Augusto Pessôa

In FELIZES PARA SEMPRE – Editora ROCCO

 

 

A FILHA DO MERCADOR

 

Era uma vez um mercador que tinha dois filhos, uma menina e um menino. Quando o mercador estava em seu leito de morte, disse:

 

- Meus filhos, vivam bem um com o outro, em amor e concórdia, assim como eu vivi com sua falecida mãe.

 

Depois morreu. Foi enterrado e muitas orações foram ditas para o descanso de sua alma, como é o costume. Logo depois, o filho do mercador resolveu fazer negócios do outro lado do mar; mandou equipar três navios, carregou-os com grande número de mercadorias, e disse à irmã:

 

- Agora, minha querida irmã, estou partindo numa longa viagem. Deixo você completamente sozinha em casa; tenha cuidado e comporte-se bem, não faça nada de errado e não trave relação com estranhos.

 

Depois trocaram retratos; a irmã pegou o retrato do irmão, e este pegou o retrato dela. Choraram por terem de se separar e despediram-se.

O filho do mercador mandou levantar âncora, o navio deslizou para longe da praia, levantou velas e chegou ao mar aberto.

Ele viajou por alguns anos.  No terceiro ano, chegou a uma certa capital muito rica e ancorou seus navios no porto. Logo que chegou, pegou um cofre cheio de pedras preciosas, peças do melhor veludo, damasco e cetim, e levou-os ao rei daquela terra como presente. Chegou ao palácio, entregou os presentes ao rei e pediu permissão para comerciar em sua capital. Aqueles presentes esplêndidos agradaram o rei, e ele disse ao filho do mercador:

 

- Seus presentes são magníficos; em toda a minha vida nunca recebi melhores. Em troca eu lhe concedo o primeiro lugar no mercado. Compre e venda, não tenha medo de ninguém e, se alguém o ofender, venha direto a mim. amanhã eu mesmo vou visitar seu navio.

 

No dia seguinte, o rei procurou o filho do mercador, começou a andar em seu navio e a examinar suas mercadorias; na cabine do capitão, viu o retrato pendurado na parede e perguntou ao filho do mercador:

 

- De quem é esse retrato?

- De minha irmã, majestade.

- Bem, senhor mercador, tanta beleza eu nunca tinha visto em toda a minha vida. Diga-me a verdade: como é o seu caráter e como são suas maneiras?

- Ela é doce e boa como uma pomba.

- Bem, nesse caso, será uma rainha; quero me casar com ela.

 

Naquele momento, um certo general que era perverso e invejoso, estava com o rei; a idéia de que alguém pudesse encontrar a felicidade o deixou louco de raiva. Ouviu as palavras do rei e ficou tomado de uma fúria terrível.

 

- Agora, pensou ele, nossas esposas terão de se curvar diante de uma mulher da classe dos mercadores!

 

Não conseguiu se controlar e disse ao rei:

 

- Majestade, a irmã desse mercador não é ninguém a sua altura; conheci-a há muito tempo atrás e mais de uma vez me deitei na sua cama e fiz jogos amorosos com ela. É uma moça muito dissoluta.

- Como é que você, mercador estrangeiro, pode dizer que ela é doce e calma como uma pomba e que nunca fez nada de errado?

- Majestade, se o general não estiver mentindo, peça-lhe para tirar o anel de minha irmã e descobrir a marca secreta que ela leva."

- Muito bem", disse o rei, e deu ao general licença para partir.

- Se não conseguir o anel, nem puder me dizer a marca secreta que ela leva em tal e tal dia, sua cabeça rolará com um golpe de minha espada.

 

O general fez seus preparativos e foi para a cidade onde vivia a filha do mercador. Chegou lá e não sabia o que fazer. Caminhava para cá e para lá pelas ruas, abatido e pensativo. Por acaso encontrou uma velha que pedia esmolas e deu-lhe  uns trocados.Ela perguntou:

 

- Em que está pensando?

- E porque eu lhe diria? Você não pode ajudar a resolver meu problema.

- Quem sabe? Talvez possa.

- Sabe onde vive a filha de tal e tal mercador?

- Claro que sei.

- Nesse caso, consiga-me o seu anel e descubra a marca secreta que ela leva; se fizer isso para mim, vou recompensá-la com ouro.

 

A velha foi mancando até a casa do mercador, bateu na porta, disse que estava indo para a Terra Santa, e pediu esmola. Falou de maneira tão astuta que a linda moça ficou enfeitiçada e não percebeu que deixara escapar o seu segredo; e, enquanto toda essa conversa estava acontecendo, a velha fez o anel da moça escorregar da mesa e escondeu-o na manga. 

Depois despediu-se da filha do mercador e correu a procura do general. Deu-lhe  o anel e disse:

 

- A marca secreta dela é um pelo de ouro embaixo do braço esquerdo.

 

O general compensou-a  generosamente e pôs-se a caminho de casa. Chegou a seu reino e foi ao palácio; o filho do mercador também estava lá.

 

- Bem... – perguntou o rei – conseguiu o anel?

- Aqui está, majestade.

- E qual é a marca secreta da filha do mercador?"

- Um pelo de ouro embaixo do braço esquerdo.

- Está certo? – perguntou o rei ao filho do mercador.

- Está, majestade.

- E como foi que teve a audácia de mentir para mim? Por causa disso vou mandar executá-lo.
- Majestade, não me execute, por favor. Dê-me permissão de escrever uma carta a minha irmã; deixe que ela venha se despedir de mim.

- Muito bem. – disse o rei – Escreva-lhe, mas não vou esperar muito.

 

E adiou a execução; nesse ínterim, ordenou que o jovem fosse acorrentado e lançado numa masmorra.

A filha do mercador, depois de receber a carta do irmão, partiu imediatamente. Enquanto viajava, tricotava uma luva de ouro, chorava amargamente, e suas lágrimas caíam como diamantes; ela pegou esses diamantes e enfeitou a luva com eles. 

Chegou à capital, alugou um quarto na casa de uma pobre viúva e perguntou:

 

- Quais são as novidades por aqui?

- Não há novidades, a não ser que um mercador estrangeiro está sofrendo por causa de sua irmã; amanhã será enforcado.

 

Na manhã seguinte, a filha do mercador acordou, alugou uma carruagem, vestiu uma bela roupa e foi para a praça. Lá a forca já estava preparada; as tropas estavam montando guarda e havia uma grande multidão; o seu irmão estava, naquele instante, sendo levado para o cadafalso.

Ela saiu da carruagem, foi direto ao rei, deu-lhe a luva que havia tricotado durante a viagem e disse:

 

- Majestade, imploro-lhe que me diga quanto vale essa luva.

 

O rei examinou-a.


- Ah... – disse o rei – Não tem preço!

- Bem, seu general esteve em minha casa e roubou uma luva exatamente igual a essa, a outra do par; por favor, peça que seja feita uma busca.

 

O rei mandou chamar o general e disse-lhe:

 

- Há uma queixa contra você por ter roubado uma luva preciosa!

 

O general começou a jurar que não sabia de nada.


- Como assim, não sabe de nada? – perguntou a filha do mercador – O senhor esteve tantas vezes em minha casa, deitou-se comigo na cama e fez jogos amorosos comigo.
- Mas nunca a vi antes! Nunca estive em sua casa, e por nada no mundo poderia dizer nesse momento quem é você, nem de onde veio.

- Nesse caso, majestade, porque meu irmão deve sofrer?

- Que irmão? – perguntou o rei. 

- Aquele que está sendo levado agora para a forca.

 

Dessa forma, a verdade foi revelada. O rei ordenou que o filho do mercador fosse libertado e o general enforcado em seu lugar. Depois ele próprio sentou-se na carruagem com a linda moça, a filha do mercador, e mandou tocar para a igreja. Casaram-se, deram um grande banquete e passaram a viver felizes e prósperos, e é assim que estão vivendo até hoje.

 

 

 

Adaptação de Augusto Pessôa

 

 

 

A FILHA DO PESCADOR

 

 

Há muito tempo atrás, num reino distante, um pescador fazia sua pescaria diária, quando encontrou no fundo do mar uma jóia. Um anel de ouro cravejado de diamantes raros.

“Uma jóia digna de um Rei”, pensou o pescador. E resolveu dar a belíssima jóia de presente ao jovem monarca de seu reino. Voltou para casa, mostrou a jóia a filha e contou o que faria. A moça se chamava Maria. Era muito linda, tão linda quanto inteligente, e desaconselhou o pai. Disse que era melhor ele não fazer isso. Mas o pescador estava decidido. Envolveu a jóia num pedaço de veludo e foi para o castelo. Entrou no enorme palácio, foi a sala do trono e depositou o presente, humildemente, aos pés do jovem Rei. O monarca ficou satisfeito com a jóia, mas disse:

 

- Agradeço o presente que me dás. Mas quero ver se realmente és fiel ao teu Rei. Tens família?

- Sou viúvo.- respondeu o pescador - E tenho apenas uma filha.

- Pois então, quero ver tua filha. Mas não quero que ela venha nem nua, nem vestida. Nem a pé, nem a cavalo. Nem de noite, nem de dia. Se isso não acontecer, somente a morte lhe caberá!

 

O pescador saiu do palácio decepcionado e já se preparando para morrer. Chegou em casa e contou o que acontecera à filha. Maria pensou um pouco e pediu ao pai que saísse e arrumasse um grande punhado de algodão e um carneiro enorme. O maior que ele pudesse encontrar. O pescador saiu e voltou com os desejos da filha. Então, Maria esperou que o dia se fizesse noite.  Quando a noite já ia terminando e o sol começava a sangrar o céu, mas a lua e as estrelas ainda se faziam presentes, a jovem Maria tirou sua roupa. Depois se envolveu no algodão, montou no carneiro e foi para o palácio. Ao chegar no enorme palácio, chamou o Rei:

 

- Eis me aqui, senhor meu Rei, a filha do pescador. Envolta em algodão: nem nua, nem vestida. Montada neste carneiro: nem a pé, nem a cavalo. Tendo o sol e a lua presentes no céu: nem de dia, nem de noite.

 

O Rei ficou impressionado com a inteligência da moça e resolveu dar uma festa em sua homenagem. E ainda disse:

 

- Vais escolher entre os objetos do palácio aquilo que mais desejares. O objeto do teu desejo será teu para sempre.

 

Maria foi mandada para um quarto que tinha sido designado para ela. Deram-lhe um belíssimo traje, digno da mais rica das princesas. Vestida como uma soberana, a jovem chamou um criado e pediu para que ele fizesse uma bebida com planta dormideira.

À noite, na hora da festa, Maria apareceu e encantou a todos os convidados. Principalmente, o jovem Rei. Quando a festa ia pela metade, delicadamente, Maria ofereceu ao Rei a bebida que tinha sido preparado pelo criado. A bebida com planta dormideira. O jovem Rei, muito afobado, tomou tudo de um só gole e logo adormeceu. Maria chamou os criados e pediu que colocassem o Rei numa a carruagem. Os criados assim fizeram. E ela partiu com o Rei para sua casa. Chegando lá, a jovem colocou o Monarca em seu quarto. Em cima da cama. Quando o jovem Rei despertou, ficou assustado e perguntou o que significava aquilo. E Maria respondeu:

 

- O senhor meu Rei me disse que eu poderia escolher o objeto que mais desejasse e que isso seria meu para sempre. Pois tu és o objeto do meu desejo!

 

O Rei, que já estava encantado, ficou completamente apaixonado. Casaram-se e foram muito felizes... Felizes como Deus com os anjos.... Felizes para sempre!

 

Adaptação de Augusto Pessôa

In FELIZES PARA SEMPRE

Editora ROCCO

 

    

 

A MULHER E A FILHA BONITA

 

Era uma vez uma mulher viúva e muito bonita. Bela como os pecados. E a viúva tinha uma filha também muito bonita. Bonita mesmo. De uma beleza intensa. A menina era linda como os amores e os pecados juntos. A mulher tinha muita inveja dessa formosura de sua filha.

A viúva ficava na porta de casa e, quando passavam viajantes, perguntava:

 

- Os senhores já viram uma cara mais formosa do que a minha?

 

E eles sempre respondiam:

 

- A senhora é muito bela; mas a sua filha ainda é mais. É a mais bela das belas!

 

A mulher ficava desesperada e ia tomando ódio à filha.

Cansada da beleza da menina, a viúva mandou trancá-la num quarto para não ser vista por ninguém. A menina sofria muito com aquilo, mas nada dizia. O quarto era escuro. Iluminado só por uma pequena janela. Um dia a menina ficou curiosa e foi olhar pela janela. Fez isso justamente no momento que viajantes passavam em frente a casa. A viúva na porta já perguntava aos andarilhos:

 

       - Os senhores já viram uma cara tão bonita como a minha?

      

       E os viajantes olharam para a janela e responderam:

 

- A senhora é bonita! Mas a moça que está lá na janela é muito mais bonita! Quanta beleza!!

 

A mulher ficou desesperada. Não queria mais aquela menina ali. Ordenou a um empregado da casa que levasse a filha para a floresta, a matasse e trouxesse uma prova de sua morte. O empregado levou a moça, mas chegando no meio do mato teve pena dela. Disse para a menina fugir e nunca mais voltar. A jovem correu desesperada. O empregado matou uma lebre, tirou o seu coração e o levou como prova para a malvada viúva.

A mocinha se viu perdida naquela floresta. Já era noite e ela subiu numa grande árvore. Muito longe viu uma fumacinha. Pensou que seria uma casinha pequena, desceu da árvore e foi até lá para pedir abrigo. Depois de muito andar, chegou e viu que a casa de pequena não tinha nada. Era enorme. Quase um palácio. Mas não tinha gente e estava muito suja. A jovem tratou de arrumar tudo: varreu, limpou, arrumou e ficou esperando para ver se alguém chegava. Mal ela sabia que aquela era a casa do Rei dos ladrões. Quando foi mais tarde a jovem viu ele chegar com a sua grande tropa. Ela teve muito medo e se escondeu. Os ladrões ficaram espantados e felizes com aquela arrumação. Procurando por toda a casa encontraram a moça. Todos ficaram encantados com a beleza da jovem e imediatamente se apaixonaram. Começaram a brigar para ver quem ficaria com ela. O Rei dos ladrões mandou que parassem com a briga e ordenou que a moça não seria de ninguém. Ela ficaria lá cuidando da casa, sendo respeitada e adorada por todos. Assim fizeram e a mocinha ficou ali descansada.

O tempo passou e a vida da jovem era só alegria na casa dos ladrões. Trabalhava muito, mas não era maltratada por ninguém. Vivia com um vestidinho simples que aumentava ainda mais a sua beleza.

Mas a viúva ficou sabendo que a filha estava viva. Viva e feliz. A malvada mandou chamar uma feiticeira. Veio uma bruxa velha e feia. A viúva mandou a velha procurar a sua filha e acabar com ela. A feiticeira aceitou a proposta e foi até a casa dos ladrões. Esperou um momento que a moça estava sozinha e bateu na porta. A jovem atendeu e a velha inventou uma história:

 

- Oh, minha querida, há tempos que a procuro! Fui sua babá e soube dos apertos que você passou! Para compensar tanto sofrimento, trago aqui um presente de pobre. É simples, mas dado com carinho.

 

E a feiticeira deu para menina o presente: era um par de sapatos ricamente decorado. Uma beleza que dava gosto de ver. A moça ficou encantada e calçou os sapatos sem saber que eles eram encantados. Assim que calçou caiu pra trás como morta. A velha feiticeira foi embora às gargalhadas.

Quando os ladrões chegaram, acharam a moça caída no chão como morta. Ficaram desesperados. Pegaram a moça e botaram num caixão em cima de um bonito carro. Mas eles não queriam enterra-la. Achavam ela tão linda e a idéia de coloca-la em baixo da terra os atormentava. Então colocaram dentro do caixão, junto com a moça, um tesouro e uma mensagem: “Quem tiver coragem que enterre!” E foram embora abandonando o caixão num campo florido.

Um príncipe, que andava caçando, encontrou e abriu o caixão. Vendo aquela moça tão bonita, ficou encantado e apaixonado. Em vez de enterrar, levou o caixão para o palácio e guardou no seu quarto com toda a riqueza que encontrou. A moça ficou ali, sempre dormindo, e o príncipe cada vez mais doido de paixão. Não deixava ninguém ir ao seu quarto.

Mas uma vez, estando ele envolvido em guerras, a princesa sua irmã teve curiosidade de ir ao quarto ver o que era que o príncipe escondia. Entrou, viu o caixão e abriu. Lá dentro aquela moça linda. A princesa achou a jovem realmente bonita. Só estranhou que ela estivesse com uns sapatos tão enfeitados e usando um vestido muito simples. Puxou os sapatos e a moça suspirou e sentou-se pedindo água. A princesa deu-lhe a água e depois tornou a calçar ­lhe os sapatos. A moça adormeceu e foi colocada de novo no caixão.

Quando o príncipe voltou, durante uma trégua, a irmã lhe disse:

 

- Conheço teu segredo. Se me deres aquele tesouro que encontras­te, eu mostro como acordar a linda jovem que está no teu quarto!

 

O príncipe concordou e a princesa desencantou a moça. Houve uma grande festa e o príncipe casou-se com a moça bonita. No fim de nove meses ela deu à luz a dois meninos. As crianças mais lindas do mundo. Mas veio para ser parteira justamente a feiticeira que tinha lhe dado os sapatos. No lugar dos meninos, apresentou ao rei um sapo e uma lagartixa dizendo que a jovem tinha dado a luz aquilo. O príncipe tinha voltado para as guerras e o pai lhe mandou uma carta contando o que tinha acontecido. O rapaz mandou uma resposta dizendo ao pai que matasse a mulher. Mas o rei teve pena e somente a expulsou do castelo.

A moça saiu pelo mundo atrás de seus filhos. Foi até a casa de sua mãe e viu quando a feiticeira entregava as crianças para a viúva. A jovem armou-se de coragem e enfrentou as duas mulheres. Essa coragem iluminou mais a beleza da moça e fez com que ela ficasse como uma aparição. A feiticeira ficou apavorada com aquilo e saiu correndo como louca. Correu tanto que caiu num rio e morreu afogada. A viúva também ficou com medo. Os olhos da moça mostravam toda a raiva e o ressentimento por causa das maldades que sofrera. Com muita vergonha a viúva foi ficando feia mostrando sua verdadeira face. Foi se desmanchando até virar cinza e pó preto sendo soprada para sempre pelo vento. A jovem passou a morar naquela casa junto com os seus dois filhos.

Muito tempo depois, o príncipe estava em uma caçada e passou por aquela casa. Viu os dois meninos brincando no quintal e ficou encantado com a beleza das crianças. Tomou por eles uma afeição imediata e foi falar com os meninos. Nesse instante a moça saiu de casa para chamar os filhos. Ao ver a jovem o príncipe percebeu o erro que tinha cometido. Chorou muito e se arrependeu do que tinha feito. Pediu perdão e tornou a viver com ela. E eles viveram numa felicidade imensa. Felizes como os anjos no céu. Felizes para sempre.

 

 

A MULHER E A FILHA BONITA

– adaptação de Augusto Pessôa

 

 

A PARABOINHA DE OURO

 

Era uma vez três irmãs, que viviam juntas; a mais nova punha à janela uma bacia com água e ali vinha espanejar-se um passarinho, que era um príncipe encantado, que falava com ela. As irmãs tomaram-lhe grande inveja, e procuraram jeito de acabar com as conversas; espreitaram e viram o príncipe, e meteram na bacia de água muitas navalhas de barba. Quando ao outro dia veio o passarinho lavar-se, cortou-se e foi-se embora. A pequena veio à hora do costume, e o passarinho não aparecia. Só quando olhou para a água e a achou cheia de sangue e com as navalhas de barba, é que compreendeu a traição das irmãs. Foi por esse mundo além, perguntando se alguém sabia onde estava o príncipe encantado. Até que chegou a casa da Lua. A mãe da Lua disse-lhe:

 

– Ai menina, que vem aqui fazer? Se a minha filha a acha aqui… Olhe que ela tem uma cara muito zangada.

 

A menina contou o que queria, e a velha escondeu-a e disse que havia de perguntar a filha, onde é que estava o príncipe. Por fim entra a Lua, muito zangada, dizendo:

 

– Tem cheiro de gente aqui.

 

A velha sossegou a Lua, e perguntou o que a menina queria. Respondeu a Lua:

 

– Eu sei lá dele! Todos os que estão doentes me fecham as janelas assim que anoitece! O Vento é que há de saber.

 

A mãe da Lua deu à menina uma paraboinha de ouro, e ela foi ter à casa do Vento. A mãe do Vento também perguntou ao filho, e ele disse:

 

– O príncipe está muito longe e eu já lá cheguei, mas como está doente fecharam-me todas as janelas. O Sol é que sabe onde é que o príncipe está.

 

A menina foi-se embora, e a mãe do Vento deu-lhe uma roca de ouro cravejada de diamantes. Até que chegou à casa do Sol; a mãe tratou-a muito bem, e nisto entrou o Sol muito radiante e alegre, e disse onde é que estava o príncipe, e ensinou-lhe o caminho. A mãe do Sol deu-lhe um fuso de ouro.

A menina chegou defronte do palácio e sentou-se, mas estava tudo fechado. Puxou da sua paraboinha e pôs-se a dobar. As criadas do palácio viram aquilo e foram dizer à rainha, que mandou dizer que queria comprar aquela paraboinha. A menina respondeu:

 

– Só se me deixarem entrar no quarto do príncipe.

 

E pôs para a banda a paraboinha, e começou a fiar na roca de ouro cravejada de diamantes. Foram dizer à rainha, e ela tornou a mandar pedir que vendesse a roca e a paraboinha. A menina respondeu, que só se a deixassem entrar no quarto do príncipe. A rainha quis, e a menina foi ter ao quarto onde estava o príncipe doente e cheio de feridas. A menina chegou ao pé da cama, falou e ele a reconheceu. A menina contou a traição que as irmãs fizeram com inveja. O príncipe ficou muito contente com a verdade e melhorou de repente, contou tudo à rainha. Amenina e o príncipe casaram e viveram ambos muito felizes.

 

 

ADAPTAÇÃO DE AGUSTO PESSÔA

 

 

A PRINCESA ADIVINHA

 

Era uma vez uma princesa que vivia em seu castelo e que dizia que só se casava com o homem que adivinhasse suas três perguntas. E mais... O pretendente teria que fazer perguntas e ela não poderia adivinhar. Caso contrário o abusado ia para a forca.

Muitos homens tentaram a sorte e foram enforcados. Ninguém acertava as adivinhas da princesa e ela adivinhava tudo.

Um pobre rapaz que era conhecido como Louva Deus, resolveu tentar a sorte com a princesa. Ele tinha um livro de orações, uma cachorrinha chamada Pita e uma vaquinha. O rapaz não podia viajar com a vaquinha, foi até a sua vizinha e disse:

 

-Vizinha, a senhora cuida de minha vaquinha que eu vou até o castelo casar com a princesa.

 

A vizinha ficou muito contente pensando que o Louva Deus seria enforcado e ela ficaria com a vaquinha. Mas a mulher era ambiciosa e teve uma ideia: fez um bolo, colocou veneno e deu ao Louva Deus dizendo que era para ele lanchar na viagem. A sorte que o Louva Deus desconfiou da vizinha e jogou o bolo fora. A cachorrinha Pita comeu o bolo e morreu. Do céu vieram sete urubus, comeram a cachorrinha e também  morreram. O Louva Deus seguiu seu caminho, quando começou a chover e ele foi para debaixo de uma árvore. Ele estava com sede e bebeu água em uma folha. A chuva parou e ele ficou com fome. Pegou uma pedra e atirou numa rolinha, mas acertou numa pomba. Não tinha lenha para assar a pomba. O Louva Deus pegou seu livro de orações faz com ele um fogo, assou o pássaro e comeu. O rapaz andou um pouco mais e viu descendo a correnteza do rio um cavalo morto com sete pássaros em cima. Depois o rapaz andou um pouco mais e viu um jumento batendo os cascos numa pedra. Todo mundo que passava por aquilo não dava atenção. Mas o Louva Deus foi até lá e levantou a pedra. Achou um saco cheio de moedas de ouro. Pegou o saco e levou com ele. Logo o rapaz chegou no castelo e lembrou que não teve tempo para pensar nas perguntas que irá fazer para a princesa, mas entrou assim mesmo.

Na sala do trono, a princesa tinha um inseto preso entre as palmas das mãos e perguntou para o rapaz:

 

-O que tenho entre as mãos?

 

O Louva Deus não sabia o que era e respondeu:

 

- Louva Deus agora está apertado!

 

A princesa ficou espantada e quis saber como o rapaz tinha acertado. Mas o Louva Deus respondeu:

 

- Isso não foi nada.

 

A princesa não gostou. Foi até seu quarto, pintou um quadro de preto cobriu, veio até o rapaz e perguntou:

 

- O que está pintado aqui?

 

O Louva Deus coçou a cabeça e respondeu:

 

- Xi... O quadro agora está preto!

 

A princesa ficou mais espantada e quis saber como o rapaz tinha acertado de novo. E o Louva Deus respondeu de novo:

 

- Isso não foi nada.

 

A princesa indignada pediu para que seus criados pegassem cocô de boi e colocassem sobre uma bandeja de prata e cobrissem. A princesa mostrou a bandeja para o Louva Deus e pediu para que o rapaz dissesse o que tinha ali. O pobre coitado viu que a morte se aproximava e gritou desesperadamente:

 

- Vocês não sabem que eu sou um adivinho de cocô!

 

A princesa ficou de boca aberta e perguntou como foi que ele tinha acertado. E o Louva Deus deu a mesma resposta:

 

- Isso não foi nada.

 

A bela princesa ficou espantada com a sabedoria do rapaz. E chegou a hora do pretendente fazer suas perguntas. O Louva Deus pensou em usar como enigma o que ocorreu na sua trajetória até chegar ao castelo e disse assim:

 

- Sai de casa com bolo e Pita.

A Pita matou o bolo

E o bolo matou a Pita.

Que também a sete matou.

Bebi água, mas não do céu.

Atirei no que vi

E fui matar o que não vi

Foi com papel santo

Que assei e comi.

Um morto vivos levava.

O que não sabia a gente

Sabia um simples jumento.

Decifre para seu tormento.

 

A princesa até tentou, mas não conseguiu adivinhar o que significava aquilo. No fundo ela já estava encantada pela esperteza do rapaz. Os dois casaram.

Dias depois foram visitar a tal vizinha que caiu dura e morreu quando viu o Louva Deus com sua esposa.

E o Louva Deus e a princesa viveram felizes para sempre!

 

 

ADAPTAÇÃO DE AUGUSTO PESSÔA

 

 

 

 

A PRINCESA COBRA

 

Era uma vez um rapaz, que vivia com sua mãe. Eram muito pobres e o rapaz vivia de vender lenha que colhia no mato. Num dia viu junto da margem de um rio uma cobra que lhe pediu que a passasse para a outra margem.


- Tenho medo que me faça mal – respondeu o jovem.

- Não precisa ter medo. Se me ajudar eu farei que você fique rico.


O rapaz pegou no bicho e colocou do outro lado do rio, onde havia um casarão. Então a cobra deu ao jovem um relógio de ouro e foi dizendo:

 

- Esse relógio é mágico! Peça o que quiser que e ele vai atender! Mas não dê, não empreste, nem venda o relógio para ninguém.

 

A cobra disse isso e entrou no casarão

Depois o rapaz foi para sua casa. Deitou à noite, mas no dia seguinte levantou tarde, dizendo à mãe que não precisava mais trabalhar. Realmente ele não precisava mais trabalhar. Tudo que precisava era só pedir ao relógio. Quando estava com fome pedia comida ao relógio e aparecia muita comida para ele e a mãe. Quando queria usar uma roupa pedia ao relógio e o traje mais rico aparecia. Tudo que queria o relógio dava.

Um dia o rapaz conheceu uma mocinha muito formosa. E a mocinha pediu o relógio emprestado. O jovem querendo impressionar a moça emprestou. A moça na verdade era uma bruxa. Ela se transformou numa horrível velha e fugiu com o relógio.

O rapaz ficou desesperado, foi até o rio e procurou a cobra no casarão. Contou tudo que aconteceu e a cobra disse que iria ajudar. Ela mandou que o jovem fosse bem cedo, no dia seguinte, até a praia. Lá ele encontraria um barco muito bonito que o levaria ao seu destino. E a cobra disse:

 

- Quando parar num porto você deve saltar. Vai ver uma porta e em seguida um jardim. Entre pela porta e vai encontrar uma grande casa. Debaixo de uma das janelas há um poço sem água. Desça por esse poço. Lá no fundo vai aparecer um batalhão de ratos comandados por um capitão. Não tenha medo. Peça ao capitão que mande os seus ratos buscar o relógio na casa da bruxa. Um rato coxo é que vai conseguir pegar o relógio. Entendeu?

 
O rapaz entendeu. Tudo aconteceu como a cobra disse. O rapaz chegou ao porto, viu a porta, o jardim, a casa e o poço. Desceu por uma corda e lá embaixo encontrou o exército de ratos e seu capitão que usava um chapéu emplumado. O jovem só não viu o rato coxo. Mas o capitão o acalmou:


- Não se preocupe! Como é coxo, não anda tão depressa!

 

Daí a pouco apareceu o coxo. O jovem pediu que pegassem o relógio e o exército partiu. Eles chegaram à casa da bruxa, o rato coxo pegou o relógio e o exército foi embora. A bruxa ficou xingando de raiva.

Logo que o rapaz se viu com o relógio pediu uma roupa nova e um bonito cavalo. Apareceram o mais belo traje e o mais magnífico cavalo branco. O jovem se vestiu e ficou parecendo um príncipe de tão bonito. Ele montou no cavalo e foi agradecer à cobra por seus conselhos.

Ao chegar naquele rio, encontrou, em vez do casarão, um lindo palácio. Perguntou quem morava ali e os criados responderam que era uma princesa encantada. A princesa apareceu. Era linda como os amores. A bela jovem disse:

 

- Eu sou a cobra que você ajudou. Aquela bruxa me enfeitiçou. Mas quando você pegou o relógio de volta quebrou o encanto. Muito obrigada.

 

A voz da bela princesa parecia música aos ouvidos do rapaz. O jovem ficou encantado com a beleza daquela mulher. Eles namoraram, casaram e foram felizes para sempre.

 

 

 

ADAPTAÇÃO DE AUGUSTO PESSÔA

 

 

A PRINCESA DO SONO SEM FIM

 

Há muito tempo atrás. Num reino distante morava uma rainha muito malvada. A danada tinha a sina de lobisomem. Comia gente! Uma coisa horrível!!

O príncipe seu filho era um moço bom e valente. O rapaz vivia triste com essa sina de sua mãe. Sua única alegria era ir conversar com um velho, muito velhinho, que morava longe do palácio, perto de uma floresta sombria.

O velhinho armava uma rede na varanda para o príncipe descansar e o rapaz passava horas e horas ouvindo as histórias do velho amigo.

Um dia, o príncipe estava lá deitado e viu no alto das árvores um pano vermelho. Parecia uma bandeira. Ele perguntou o que era aquilo e o velho contou:

 

- Aquilo é um palácio encantado. Meu avô contou a meu pai, que contou pra mim. E a história é assim:

 

Era um reino, onde o rei e a rainha vivam tristes porque não tinham filhos. Eles sonhavam com um herdeiro e a Rainha pedia com tanta vontade... e fazia tantas promessas... que um dia conseguiu. Ficou grávida e nasceu uma menina bonita como o sol. Todo o dia tinha festa no palácio por causa do nascimento da princesinha. Para o batizado o rei convidou todas as fadas que moravam por perto. Só não convidou a fada velha porque ninguém sabia onde ela morava. Alguns até achavam que ela já tinha morrido. As fadas vieram todas e já estavam na mesa do banquete quando a fada velha apareceu resmungando muito. Soltava fogo pelas ventas de tanta raiva por não ter sido convidada. A fada mais nova reparou na zanga da fada velha e mais do que depressa se escondeu atrás de uma cortina. Depois do banquete as fadas deram os seus presentes. Fadaram boas sinas e dons maravilhosos para a princesinha. Cada uma dizia a coisa mais bonita do mundo:

 

- Eu te fado que sejas linda como a luz do sol. – disse a fada azul.

- Eu te fado que sejas boa como o amor de mãe! – disse a fada rosa

- Eu te fado que sejas rica como um tesouro! – disse a fada dourada.

- Eu te fado com a sabedoria dos mais sábios! – disse a fada amarela.

 

E assim foram todas dizendo belezas e o rei ficava cada vez mais feliz, ao lado da rainha que tinha a princesinha nos braços. Quando todas as fadas que estavam na mesa deram os seus presentes, a fada velha se levantou e com a fala cheia de mágoa disse:

 

- Não sei porque tão boas sinas para a princesinha já que ela nem vai aproveitar!

 

Ninguém entendeu o que ela queria dizer. E erguendo os braços a fada velha deu a sina:

 

- Ouçam bem, todos vocês: a princesa crescerá em graça e formosura! Amada por todos que a cercam! Mas... até a idade de dezesseis anos! Quando completar a décima sexta primavera ela picará o dedo no fuso de uma roca de fiar e morrerá. Sem remédio para isso!

 

Disse o que disse e desapareceu. As fadas, que já tinham fadado e não podiam desmanchar o que a fada velha tinha feito, choravam sem consolo. Foi então que a fada mais nova saiu do seu esconderijo e disse:

- Não posso desmanchar o que foi fadado porque não tenho poderes para isso. Mas, como ainda não dei meu presente, posso tentar ajudar.

 

E erguendo os braços a jovem fada agitou a sua varinha dizendo:

 

- Fado que a princesinha não morra quando o fuso lhe ferir o dedo! Que fique dormindo por cem anos! Vai dormir até ser acordada pelo beijo de um lindo príncipe! Um beijo de amor!

 

Mesmo assim, a festa perdeu a graça e acabou. O rei proibiu, sob pena de morte, que alguém fiasse com o fuso naquele reino. Por precaução, quando a princesinha fez quinze anos, foram todos para um outro palácio. Um castelo mais escondido que o rei possuía. Ao chegar no grande palácio, a menina andava, para cima e para baixo. Curiosa como só ela. E lá num quarto no alto da torre, encontrou uma criada que estava fiando. Na verdade era a fada velha disfarçada. A princesinha nunca tinha visto aquilo e quis fazer igual. Assim que a menina pegou no fuso, ele saltou de sua mão e furou seu dedo. A princesinha caiu para trás, como morta. A fada velha deu uma terrível gargalhada e sumiu numa cortina de fumaça. Todos correram e deitaram a menina numa cama. A fada mais nova veio voando e bateu a varinha de condão no alto do palácio. Todo mundo que estava dentro pegou no sono profundo. Os músicos ficaram com os instrumentos na boca e a cozinheira ficou dormindo na frente do fogão onde uma galinha estava sendo assada. Até o fogo adormeceu. A fada mais nova fez um novo gesto com a varinha e uma densa floresta surgiu em volta do castelo para proteger os que dormiam ali. Só o rei e a rainha não adormeceram. Eles beijaram sua filha, abençoaram e foram embora, com a fada, para o seu reino. Rezavam todos os dias para que o encanto tivesse fim. Mas a terrível sina não se quebrou, o rei e a rainha morreram e o reinado deles acabou. Só ficou o palácio dentro dessa floresta, com a princesa dormindo o seu sono mágico e centenário. E assim termina essa triste história, disse o velho, que é verdadeira do inicio ao fim.

O príncipe ficou curioso em saber se a história que o velho contou era verdadeira  mesmo. No dia seguinte, bem cedo, pegou um facão afiado e foi para floresta. Chegou e meteu o facão, abrindo caminho, porque a mata era fechada. Ia abrindo e entrando, e assim trabalhando, foi andando, até que deu com o palácio coberto de cipós, sem nenhum rumor, parecendo morto. O príncipe entrou pela porta principal e foi vendo: soldados, músicos, damas, senhores, até os bichos, Tudo parado, dormindo a sono solto.

Ele subiu por uma escada e passou por salas cheias de gente roncando. Até que entrou num quarto onde viu uma cama protegida por um lindo dossel. O príncipe puxou a cortina do dossel e viu a moça mais bonita do mundo, profundamente adormecida. O rapaz ficou completamente apaixonado. Nunca tinha visto uma jovem tão linda. Ele aproximou-se devagar e beijou a princesa. A jovem abriu os olhos e disse:

 

- Oh, príncipe! Como demoraste em vir!

 

O palácio estremeceu e todo mundo acordou. O príncipe ouviu as cornetas tocando, bichos berrando, gargalhadas, gritos, música, enfim... barulho de gente viva.

Veio um mordomo muito bem vestido anunciar que o jantar estava à mesa e o príncipe comeu a galinha que estava sendo assada há cem anos.

Ficou aí como num céu aberto e os dois casaram sem perder tempo.

Os dias voavam e o casal era muito feliz.

Mas o príncipe escondia um segredo: sua mãe que tinha sina de lobisomem. O rapaz ia ao palácio da rainha para dar ordens e voltava para o castelo de sua amada. Sempre dizia que estava caçando e não queria que ninguém o acompanhasse.

No fim de um ano a princesa teve um filho. Um menino lindo a quem deram o nome de Belo-Dia. E no outro ano nasceu uma menina,  que foi chamada de Bela-Aurora.

Mas o reino entrou em guerra e o príncipe tinha que seguir com as suas tropas. Como não queria deixar a mulher e os filhos sozinhos, resolveu levar todos para o palácio da rainha. Foi na frente e contou toda a história para sua mãe. A rainha fez uma  cara estranha e ficou imaginando as piores coisas.

Antes de partir, o príncipe dividiu o palácio em duas partes A Rainha ficaria num lado e a princesa com os filhos no outro. O rapaz chamou um  velho mordomo, que era seu amigo, e pediu que vigiasse sua família e tivesse muito cuidado com a rainha.

Assim que o príncipe montou a cavalo e viajou, a malvada rainha começou a ter vontade de comer gente. Ficou mesmo bruta e, como o desejo não passava, chamou o velho mordomo. Mandou que lhe servisse Belo-Dia, com bom molho e batatas coradas, para o almoço do dia seguinte.

O    velho só faltou morrer. Pensou.... pensou.... e procurou a princesa. Contou tudo e a moça ficou desesperada. O velho mordomo levou Belo-Dia para sua casinha, longe do palácio e escondeu-o. Na manhã do outro dia matou uma lebre, preparou e serviu a malvada rainha. A danada comeu lambendo os beiços.

Dias depois veio o desejo e ela queria comer Bela-Aurora. Queria a menina assada e temperada com melado. O velho levou a menina para casa e assou uma gata. A rainha comeu chupando os dedos de felicidade.

Dois dias depois exigiu que a princesa fosse refogada em molho de tomate e cebola para o jantar. O velho mordomo levou a princesa para sua casa, juntou-a aos filhos e matou uma ovelha. A rainha comeu saboreando.

Os dias iam passando e a rainha só pensava em comer gente. Saia pelas ruas do reino para caçar como uma desesperada. Uma noite, foi para bem longe do palácio e viu uma casinha escondida na mata. A malvada se aproximou e ficou escutando. Ouviu a voz da princesa e a de seus netos conversando dentro da casa. Eles falavam sobre o príncipe e da saudade que tinham dele. Mas a rainha malvada não tinha coração, nem pena para isso. Percebeu logo que aquela era a casa do velho mordomo e resolveu se vingar. Mandou prender a nora, os netos e o velho. Depois ordenou que se fizesse uma fogueira enorme para queimar aqueles que a desobedeceram. Os guardas, sem outra alternativa, amarram os quatro infelizes num tronco em cima da fogueira. A rainha ficou na varanda assistindo a tudo. Numa gargalhada ela mandou os guardas botarem fogo na lenha. Quando as chamas começavam a crescer ouviu-se uma corneta e barulho de cavalos que se aproximavam. Era o príncipe que voltava vitorioso das guerras. O rapaz estava morto de saudades da mulher e dos filhos e vinha com seus soldados no maior galope. Chegando na praça e vendo aquela cena terrível, o príncipe pulou de seu cavalo, puxou a espada e libertou a princesa, os filhos e o seu velho amigo. Bufando de raiva, o jovem guerreiro gritou perguntando quem se atrevera a maltratar aqueles que ele mais amava no mundo.

A rainha com medo da ira do príncipe saltou da varanda para a fogueira. Morreu, queimada, estorricada, virada cinza e pó. Foi soprada para sempre pelo vento.

O príncipe foi para o palácio abraçado com a princesa e carregando nos ombros Belo-Dia e Bela-Aurora. Convidou seu velho amigo para continuar morando com eles e todos foram felizes como Deus com os anjos. Felizes para sempre.

 

 

A Princesa do Sono Sem Fim

Adaptação de Augusto Pessôa

 

 

 

A RAINHA QUE SAIU DO MAR

 

Houve um rei que desejava se casar com a moça mais bonita que houvesse no seu reino. Já se tinham corrido todas as casas e chamado todos os pais de família para apresentarem suas filhas, e nenhuma tinha agradado ao rei. Pois nessa mesma época, entrou para o batalhão real um recruta meio abobado. Um dia, todo o batalhão foi à missa. Logo que entrou na igreja o batalhão, o tal abobado pôs-se a chorar. Ninguém entendeu nada e o comandante do batalhão perguntou para o recruta o que estava acontecendo. E o pobre respondeu que ele nada sofria, mas que tendo visto aquela imagem (apontando para uma imagem muito formosa que havia na igreja) tinha ficado com saudades de sua irmã, que muito se parecia com aquela santa. Ficaram todos duvidosos e zombando do pobre soldado, mas a história chegou aos ouvidos do rei. Este mandou chamar o rapaz e indagou se era verdadeira a história. O soldado respondeu ser exato ter uma irmã muito formosa e parecida com a imagem que havia na igreja. Perguntando o rei onde morava ela, o soldado respondeu:

 

- Nas gargantas do Monte Escarpado, a dez mil léguas por mar.

 

O rei mandou logo preparar uma esquadra e enviou uma comissão para pedir a moça em casamento a seu pai. O recruta também foi com a comissão. Logo que chegaram ao Monte Escarpado, avistaram a moça na janela e ficaram todos embasbacados de ver tanta beleza junta. O almirante entregou ao pai da moça a carta do rei, e o velho enviou a sua filha. Na volta do Monte Escarpado, o mar era muito forte, jogava muito e o almirante decidiu ir para a terra. Chegaram numa ilha e foram com a moça ter à casa de uma velha, que ali morava. A velha, que era uma desmancha-prazeres, perguntou para onde iam e de onde vinham, e sabendo de tudo armou um plano: Convidou a moça para ir dar um passeio pela horta. Chegando lá, atirou a moça dentro de um poço. Ora, já sendo de noite, quando a esquadra embarcou, ninguém deu falta da moça; porque a velha pôs em seu lugar a sua filha, que era um monstro de feia. Quando os navios foram embora, a velha foi ao poço, tirou a moça de lá, cortou seus cabelos, jogou um pó mágico em seu rosto para cegá-la e deixa-la muda, amarrou a moça e botou-a num caixão. Atirou o caixão no mar e foi para casa gargalhando. Mas por uma sorte da vida, o mar levou o caixão até o reino. E o caixão chegou primeiro que os navios. Um pescador o achou e levou para casa. Sem abrir julgou que o caixão estava cheio de dinheiro. Começou a gabar-se, dizendo que tinha mais dinheiro que o rei. O monarca soube da história e chamou o pescador. O homem confessou ter achado um caixão cheio de dinheiro, e foi um guarda do palácio, para examinar o caso. Aberto o caixão, deram com a moça dentro. Ficaram todos penalizados por verem uma moça tão bonita cega, muda e com os cabelos cortados. Voltou o guarda para o palácio com a moça que iria trabalhar na cozinha. Quando chegaram no palácio, já tinha também chegado à comissão com a filha da velha. O almirante, muito triste, disse ao rei:

 

- Não fui como vim. Fui alegre e volto triste; mas me sujeito à pena que o rei, meu senhor, me quiser dar.

 

O rei respondeu:

 

- Nada tenho a fazer, senão casar- me com esta feia mulher, que me chegou. Palavra de rei não tem volta.

 

Houve o casamento, mas o rei se conservou sempre triste e vestido de luto. Um tempo depois, o monarca encontrou a moça cega e muda trabalhando na cozinha e ficou ainda mais triste. A moça foi reconhecida por seu irmão e pelos da comissão. O rei mandou buscar a velha em cuja casa estiveram de passagem. A velha negou tudo e até desconheceu a sua própria filha. O rei, reconhecendo que os traços da velha eram os mesmos da moça feia com quem tinha casado, mandou ela embora junto com a mãe. Mas antes mandou cortar o cabelo das duas. Os cabelos voaram e caíram no rosto da moça que foi achada no mar. Logo ela voltou a falar, a enxergar e seus cabelos cresceram. Houve então o novo casamento com a rainha, que veio do mar.

 

 

ADAPTAÇÃO DE AUGUSTO PESSÔA

 

 

 

COURO DE PIOLHO

 

Há muito tempo atrás, num reino distante, uma linda Princesa era penteada por sua ama. Até que a ama achou, nos longos cabelos da Princesa, um piolho. A Princesa ficou admirada com aquilo. Resolveu guardar o bicho numa caixinha. O tempo foi passando, e o piolho crescendo na caixinha. A Princesa teve que passar o bicho para uma caixa maior... e para outra... e outra... até que o bicho ficou enorme. Mostrou o piolho ao Rei. E o monarca teve uma idéia. Matou o bicho e arrancou o couro. Mandou fazer um banquinho com o couro e disse para a rainha e a filha guardarem segredo. Depois baixou um decreto: Aquele que adivinhasse de que bicho era o couro daquele banquinho ganharia a mão da Princesa.

A notícia se espalhou pelo reino e por outros reinos. Primeiro vieram os filhos dos reis, mas nenhum deles descobriu. Depois, os filhos dos nobres, mas também não descobriram. Em seguida, os filhos dos ricos... os filhos dos menos ricos, mas nenhum deles descobriu. Vieram então, os pobres e os miseráveis, mas eles também não descobriam. A Princesa, que de início gostou da brincadeira, já estava ficando chateada. Tinha medo de não arrumar casamento.

Perto dali, vivia uma velha bem velha com um filho com cara de bobo. O rapaz que se chamava João, decidiu ir ao reino tentar adivinhar o enigma. A velha desaconselhou-o, mas o rapaz estava decidido. A velha então preparou uma merenda para o filho e ele partiu. Andou bastante, até que veio a noite. Estava se preparando para comer a merenda quando apareceu um velho. O velho pediu um pouco de comida e João convidou-o para sentar e comer. Os dois comeram à vontade. Depois João armou sua rede e ofereceu para o velho dormir. João dormiria ali pelo chão mesmo. O velho agradeceu e disse que tinha poderes mágicos. Tirou três fiapos de sua roupa e entregou a João dizendo que, quando ele precisasse, era só queimar um dos fiapos e talvez seu desejo se realizasse. Depois foi embora. João guardou os fiapos e dormiu.

No dia seguinte, continuou viagem até chegar ao castelo. Na porta do castelo havia uma fila de mendigos. João entrou na fila. Iam de quatro em quatro para tentar adivinhar o enigma. Até que chegou a vez de João e outros três. Entraram na sala do trono e viram o Rei, a Rainha e a Princesa cercada de amas. O Rei tomou a frente e perguntou:

 

- Então, de que bicho é o couro desse banquinho?

 

O primeiro mendigo disse:

 

- É couro de rato!

- Não é!

 

O segundo disse:

 

- É couro de lagartixa!

- Não é!

O terceiro disse:

 

- É couro de tatu!

- Não é!

 

João foi para perto da janela, pegou um dos fiapos e queimou. Palavras não foram ditas, mas na cabeça de João surgiu a imagem de um piolho. João achou estranho, mas aproximou-se do Rei e disse:

 

- É couro de piolho!

- E é! Acertou!!

 

O Rei ficou satisfeito. Mas a Princesa não gostou nada daquilo. Ela não queria casar com aquele sujeito com cara de bobo que nem bonito era. A jovem falou com Rei. O monarca chamou João e disse:

 

- João, está tudo muito certo, mas antes de casar com a Princesa você terá que cumprir umas tarefas. Terá que levar ao pasto cem coelhos. E no final do dia me trazer os coelhos todos sem perder nenhum.

 

João aceitou. Ele sabia que levar cem coelhos ao pasto era o mesmo que levar ao pasto cem moscas. Impossível. Mas...

No dia seguinte, entregaram os coelhos a João. Quando abriram a porta do castelo os coelhos todos fugiram. João foi andando tranqüilamente até o pasto. Quando chegou lá, pegou o segundo fiapo e queimou. Palavras não foram ditas, mas apareceu na frente de João uma flautinha. O rapaz soprou a flauta e os cem coelhos apareceram na sua frente enfileirados como guardas. João dispersou os coelhos e esperou o final do dia. Na hora certa, foi até ao castelo. Quando chegou lá, tocou a flautinha e os cem coelhos apareceram enfileirados como guardas. João chamou e Rei e disse:

 

- Estão aí os coelhos. Pode contá-los.

 

E estavam lá os cem bichos enfileirados. A Princesa reclamou de novo com o Rei. E o monarca mandou que João repetisse a operação no dia seguinte.

E assim foi. No dia seguinte, João saiu com seus coelhos. Mas a Princesa mandou que uma de suas amas pegasse um coelho do cara de bobo. A moça foi e pediu o coelho. João lhe disse:

 

- Dar, não dou! Mas vendo! Vendo por um beijo!

 

A moça ficou ofendida. Disse ser recatada e que aquilo era um absurdo. Mas como era ordem da Princesa deu o beijo em João. O rapaz entregou o coelho e ama saiu correndo. Quando estava chegando no castelo, João soprou a flautinha. O bicho esperneou para um lado... esperneou para o outro... e escapou da moça. A Princesa quando soube ficou danada. Mandou outra ama para realizar a tarefa. A outra moça foi e pediu o coelho. João lhe disse:

 

- Dar, não dou! Mas vendo! Vendo por dois beijos!

 

A moça ficou ofendida. Disse que era um abuso e coisa e tal. Mas como era ordem da Princesa deu os beijos em João. O rapaz entregou o coelho e a ama saiu correndo. Quando estava perto do castelo, João tocou a flautinha. O bicho esperneou para um lado... para outro... e escapou da moça.  A Princesa quando soube ficou mais danada ainda e disse:

 

- Quem quer vai, quem não quer manda!!

 

E foi pedir o coelho a João. O rapaz lhe disse:

 

- Dar, não dou! Nem vendo! Mas troco! Troco por sua blusa!

 

A Princesa ficou muito ofendida. Era um acinte. Mas João estava decidido. A Princesa foi para trás de uma árvore, tirou sua blusa e se enrolou no xale. Entregou a blusa a João que lhe deu um coelho. A jovem correu, mas quando estava chegando no castelo, João soprou a flautinha. O bicho esperneou por um lado... por outro... e escapou. No final do dia, João foi para o castelo levando os coelhos. A Princesa já não estava achando o João tão feio assim. Mas era teimosa. E depois da história da blusa não queria nada com ele. E o Rei falou para João:

 

- Está tudo muito bom. Mas você vai realizar mais uma tarefa. Na hora da ceia, eu quero um saco cheio de mentiras.

 

João aceitou. Apesar de saber que juntar mentiras num saco e o mesmo que contar todas as estrelas do céu. Impossível. Mas... João foi para seu quarto e queimou o último fiapo. Dessa vez palavras foram ditas, mas no ouvido de João. Na hora da ceia, foi entregue a João um saco vazio. Estavam lá o Rei, a Rainha e a Princesa cercada de suas amas. João pegou o saco, ficou na frente da primeira ama e disse:

 

- Conheço uma ama da Princesa que comprou um coelho por um beijo!

- É mentira!

 

Gritou a ama. João fez como se colhesse uma fruta e mostrou ao Rei.

 

- Já começou a ficar cheio, Majestade!

 

Foi até a segunda ama e disse:

 

- Conheço uma ama da Princesa que comprou um coelho por dois beijos!

- É mentira!!

 

Gritou a ama. João repetiu e gesto e mostrou o saco ao Rei.

- Já está pela metade, Majestade!

 

Foi até a Princesa e disse:

 

- Conheço uma Princesa que trocou sua blusa por um coelho!

- É mentira!!!

 

Gritou a Princesa. João repetiu o gesto e mostrou o saco ao Rei.

 

- Pronto! O saco está cheio de mentiras, Majestade!

 

O Rei, já sem saber o que fazer, disse:

 

- Agora só depende da Princesa...

 

A Princesa, que já não achava o rapaz tão feio, ficou encantada com esperteza de João. Olhou para um lado... olhou para outro... e aceitou. João casou-se com a Princesa e fizeram uma grande festa de casamento. Eu estive lá, na festa. E trouxe umas compotas para vocês. Mas na ladeira do Conclins tropecei e quebrei meu nariz.

 

 

Adaptação de Augusto Pessôa

 

CABELOS DE OURO

 

Um homem e a sua mulher tinham um casal de filhos, mas não tinham como dar de comer aos pequenos. Uma noite, estando já deitados, o menino ouviu os pais dizendo:

 

– É necessário matar um desses filhos, porque não podemos com tanta família.

 

O pequeno acordou a irmãzinha, contou tudo e fugiram de casa. Foram andando noite e dia, e já muito longe o rapazinho cansado deitou no chão e adormeceu com a cabeça no regaço da irmã. Passaram por ali três fadas, e vendo a menina e o irmão, elas deram dons a mocinha:

 

- Que tenha a cara mais linda do mundo!

- Que quando se pentear dos seus cabelos caiam fios de ouro!

 

E os dons aconteceram.

Assim que o pequeno acordou, eles continuaram no caminho. Foram dar na casa de uma velha muito feia que tinha uma filha mais feia ainda. A velha recolheu os dois para trabalharem como escravos.

Passaram-se anos de trabalho duro. Até que um dia o rapazinho se cansou de trabalhar ali e quis dinheiro para fugir com a irmã. A mocinha penteou-se e caiu muito ouro. Ele levou o ouro para vender na cidade escondido da velha. O ourives que comprou aquela fortuna ficou desconfiado e perguntou ao rapaz como é que ele arranjava aquele ouro. O rapaz contou, mas o ourives não quis acreditar no que ele disse. Foi dar parte ao rei, que mandou prender o rapaz até vir a irmã à corte para se apurar a verdade.

A velha, que tinha ficado com a menina dos cabelos de ouro, descobriu a fuga do rapaz e resolveu prender a moça. Foi então que veio a ordem do rei para que a levassem à corte. A velha pensou que era melhor jogar a menina ao mar e levar sua filha no lugar dela. E assim fez. A pobre moça tentava nadar para se salvar, mas já estava cansada.

O rapaz que estava preso numa torre que tinha uma fresta para o mar, viu sua irmã nadando. Fez uma corda com uns lençóis torcidos para que ela subisse. A jovem conseguiu subir.

A velha chegou à corte com a filha, e se ela não botasse ouro dos cabelos, o rapaz iria ser condenado a morte. Quando a mocinha soube isto ficou desesperada, mas o irmão a acalmou dizendo que eles iriam resolver o problema.

Veio o dia em que a velha teve de apresentar a filha diante do rei. A filha feia se penteou, mas não deitava ouro dos cabelos. O rei mandou que os soldados trouxessem o rapaz para morrer. Quando os soldados entraram na prisão, lá encontraram também a moça. Levaram os irmãos a presença do rei. O monarca quando viu a jovem ficou encantado com sua beleza. A bela se penteou diante do rei, e todos ficaram pasmados daquele dom e da sua grande formosura. A menina contou ao rei tudo que aconteceu com ela e o irmão.. O monarca perguntou o que queria que fizesse da velha. E a moça respondeu:

 

– Quero que da pele se faça um tambor, e dos ossos uma cadeirinha para eu me sentar.

 

E assim foi feito.

Depois o rei pediu a moça em casamento e os dois se casaram. O irmão ficou morando com eles e todos viveram muito felizes. 

E acabou a história.

 

 

 

ADAPTAÇÃO DE AUGUSTO PESSÔA

 

 

 

AS FADAS

 

Era uma vez uma mulher que tinha duas filhas. Duas mocinhas muito bonitas. Só que a mais velha era invejosa, preguiçosa e mal educada. Enquanto a mais nova... A mais nova era um doce de pessoa. Boa, generosa e educada.

Um dia a mulher pediu para as filhas que fossem ao poço pegar água e a mais velha resmungou:

 

- Pra que tanta água? Vai ela sozinha que já está bom!

 

A mãe ficou triste com a resposta da filha, mas a caçula quis logo atender ao pedido. Pegou um balde e foi para o poço. Ao chegar lá encontrou uma velha muito velha e maltrapilha. A mulher toda enrugada tinha os cabelos ralos e sujos. A mocinha já ia pegar água no poço quando a velha senhora pediu num sussurro:

 

- Por favor, me dê um pouco de água...

 

A menina deu água para a velha que ficou tão agradecida... Mas tão agradecida que disse:

 

- Muito obrigado, minha filha. Você merece um presente.

 

A velha fez um gesto mágico. Aparentemente nada aconteceu. A menina já ia dizer que não precisava de nenhum presente, quando abriu a boca e de lá saltaram flores e pedras preciosas. Uma coisa que dava gosto de ver. A mocinha agradeceu muito e foi embora para casa com o balde cheio de água. A velha ficou olhando a menina partir e se transformou numa linda mulher. Seus cabelos pareciam de ouro. Sua pele brilhava ao sol. Estava vestida com as mais caras sedas e adornada com as jóias mais valiosas.

Quando a menina chegou em casa, foi falar o que tinha acontecido e de sua boca saltaram mais flores e pedras preciosas. Uma coisa linda. A mãe ficou espantada e a irmã mais velha com muita inveja perguntou:

 

- Como você conseguiu isso?

 

E a caçula contou da velha, da água e de tudo mais.

Sem perder tempo a mais velha pegou um balde e correu para o poço. Ao chegar lá deu com aquela mulher belíssima vestida como uma rainha. A menina invejosa já ia pegar a água quando a bela mulher pediu com voz firme:

 

- Por favor, me dê um pouco de água!

 

A invejosa olhou para mulher com desdém e falou:

 

- Não tem mão não? Pega água você! Se ainda fosse uma velha mendiga, mas você? Hum... Tenho mais o que fazer!

 

A bela mulher não gostou nada. Tanto não gostou que assim foi dizendo:

 

- Muito obrigado por nada, minha filha. Mesmo assim você merece um presente.

 

A bela mulher fez um gesto mágico. Aparentemente nada aconteceu. A menina invejosa já ia dizer que não estava vendo presente nenhum, quando abriu a boca e de lá saltaram cobras, lagartos e sapos. Uma coisa que dava nojo de ver. A mal educada saiu correndo para casa. Quando chegou a mãe e a irmã caçula ficaram com pena. E a invejosa passou uma semana cuspindo coisas horríveis.

E aconteceu assim.

Não tenham dúvidas

Podem acreditar em mim!

 

ADAPTAÇÃO DE AUGUSTO PESSÔA

MELANCIA E COCO MOLE

Havia um rapaz que gostava muito de uma moça e queria casar com ela. Um dia ele foi chamado pras guerras e disse à moça que não casasse com outro, que quando ele voltasse casaria com ela. Para ninguém desconfiar eles trocaram apelidos: o rapaz tratava a moça de... Quero ver se vocês adivinham:

 

Me chamam mela, mas não sou melão. Não é tão doce a casaca quanto o coração?

 

Ele a chamava de Melancia.

E a moça o tratava por... Quero ver se vocês adivinham:

 

Tem três olhos, mas só chora por um?

 

Ela a chamava de Coco Mole.

Um dia se despediram muito chorosos e ele partiu para as guerras.

Todo dia aparecia casamento para esta moça, mas ela ficava firme.

Mas o tempo passou e não teve jeito. Apareceu um rico coronel e o pai da moça decidiu que ela havia de aceitar. A Melancia, mesmo sem querer, fez a vontade do pai e foi marcado o casamento.

No dia do casamento, o Coco Mole voltou das guerras. Quando o rapaz soube do casamento de sua amada ficou triste de dar pena de ver. O rapaz ficou tão triste que não quis comer. Ele tinha um criado que percebeu essa tristeza e perguntou o que estava acontecendo. O Coco Mole contou tudo e o criado disse:

 

- Deixa comigo!

 

Tinha uma árvore no meio da praça onde o Coco Mole e a Melancia se encontravam sempre. O criado mandou o Coco Mole esperar na árvore e foi até a casa de Melancia. Chegando lá encontrou já todos os convidados, o noivo e a noiva já preparados, só faltando o padre para os casar. O criado pediu licença para fazer uma saúde à noiva, chegou para junto dela e disse:


- Eu venho de terra tão longe

Perdido de tanta guerra!

Melancia, Coco Mole

É chegado nesta terra!


Todos bateram palma e disseram:

 

- Bravo, Rapaz! Faça outra saúde!

 

E o criado continuou:

 

- Não há bebida tão boa

Como seja o aluá!

Melancia, Coco Mole

Te  espera no lugar!


Todos ficaram felizes e gritaram:

 

- Muito bem, rapaz! Faça outra saúde!


E o criado terminou:

 

- Moça, que está tão bonita

Não se esqueça do passado!

Melancia, Como Mole

Te manda muito recado!

 

Todo mundo bateu palma, mas não entendeu bem aqueles versos.

Só a Melancia entendeu. A moça levantou e disse que ia beber água. Saiu caladinha pela porta do quintal e foi direitinho à árvore onde ela costumava ir conversar com seu antigo namorado, que era o do peito. Chegando lá, encontrou o seu amor e ao mesmo tempo um padre já apalavrado para os casar. Os dois casaram e foram felizes para sempre.

O PRINCIPE LAGARTÃO

 

Uma Rainha queria muito ter filhos e sofria por não conseguir. Uma vez, perdendo a paciência, pediu que Deus lhe desse um herdeiro de qualquer jeito. Podia até ser um bicho. Meses depois, ela deu a luz a uma criatura estranha com corpo de lagarto.

Mesmo sendo um monstro era filho da Rainha! Foi tratado como príncipe com tudo que tinha direito. Mas aconteceu um problema: quando a ama entregou o seio para o Lagartão mamar, o bicho deu um apertão tão forte com as gengivas que arrancou fora o peito da pobre. E isso aconteceu com todas as amas que tentaram dar de mamar ao Príncipe Lagartão.

As mulheres corriam de medo de trabalhar no palácio. O Príncipe, que apesar de lagarto tinha a voz de menino, chorava com fome. A Rainha não sabia o que fazer vendo seu filho morrer de fome. Ofereceu prêmios e muito dinheiro a quem fosse capaz de alimentar o herdeiro do reino.

Atraídas pela fortuna e presentes, as amas compareciam, mas todas ficavam sem o peito, cortado pelo lagarto no momento de começar a mamada.

Trabalhava perto do palácio um ferreiro que tinha uma filha. A jovem era inteligente como uma fada e querida por quem a conhecia. Ela se chamava Maria e sabendo do caso do Príncipe teve uma idéia para resolver o problema. Mandou o pai fazer um peito de ferro e foi para o palácio. Ofereceu-se para trabalhar como ama. A Rainha avisou do problema do filho e Maria explicou;

 

            - Rainha, minha senhora, pedi a meu pai para fazer uma armação de ferro na forma de meu seio! Encherei esse armação com leite e o príncipe pode mamar sem machucar ninguém!

 

A Rainha deixou Maria trabalhar no palácio. A moça encheu a armação com leite, amarrou aquilo no seu busto e deu de mamar ao Príncipe Lagartão. O pequeno ficou com as gengivas machucadas de tentar arrancar aquele peito. Mamou, mamou, ficou satisfeito e adormeceu. Tudo ficou tranquilo e os anos foram passando sem problemas.

Acontece que, sendo alimentado, o Príncipe Lagartão cresceu. Ficou enorme. Era estranho, medonho: tinha os olhos e a voz humana, mas continuava com aspecto de lagarto.

Quando ele ficou adulto, a Rainha achou que o Príncipe tinha que casar. Foi colocado um anúncio no reino convidando as moças a comparecer ao palácio para que o Príncipe Lagartão escolhesse sua esposa. Mas nenhuma moça quis casar com aquele bicho mesmo sendo herdeiro de um reino.  A Rainha falou com seu filho que ninguém queria ele como esposo e o Lagartão respondeu:

 

            - Não tem importância, Rainha, minha mãe! Já escolhi minha noiva! É a Maria que me criou com o peito de ferro! Mande chamá-la e pergunte se quer fazer esse outro sacrifício por mim!

 

A Rainha mandou chamar Maria e contou o desejo do Príncipe. A moça pediu três dias para responder e foi rezar. Rezou, rezou e rezou pedindo que Deus mostrasse os caminhos certos. Voltou ao palácio e aceitou a proposta.

Fizeram o casamento no palácio. Maria ficou bonita como o raiar do dia. O noivo arrastava-se todo vestido de seda verde, bordada de ouro e pedras preciosas. Houve muita festa. No fim dos festejos o novo casal foi conduzido ao quarto.

Logo que entraram o Príncipe Lagartão apagou a luz e ficou tudo nas trevas. Maria mudou a roupa e deitou-se. Apesar da escuridão a noiva reparou que o marido estava no meio do quarto, em pé, como um homem. Ele ia tirando uma por uma sete capas e deitando as no chão. Quando arrancou a última capa estava um homem perfeito. O rapaz foi para o leito e Maria fingiu que não viu nada.

Pela manhã, quando Maria acordou, o Príncipe estava novamente como um lagartão. Esverdeado e feio. A moça contou para a Rainha o que tinha acontecido e ela lhe disse:

 

            - Maria, vista sete saias brancas, virgens de uso, molhadas na água de laranjeira. Quando for para o quarto fique na beira na cama, sentada, sem mudar a roupa. O Príncipe vai perguntar por que você não troca à roupa. Diga que só o fará ao mesmo tempo que ele. Cada saia que você tirar ele fará o mesmo com uma capa e você reza uma Ave-Maria. No fim, quando acabarem, você pega a mão dele e espeta a ponta do dedo com esse espinho. Faça o que lhe digo e seja feliz, minha filha!

 

A Rainha deu o espinho a Maria. A jovem se bem ouviu, melhor fez.

De noite, na hora de dormir, sentou na cama vestida com as sete saias. O Príncipe Lagartão, habituado com a mulher ir logo deitando para descansar, ficou de pé como um homem, no meio do quarto, na escuridão. Reparando que a mulher estava acordada e vestida perguntou:

 

            - Maria, não vai trocar de roupa para dormir?

 

E a jovem respondeu:

 

            - Trocarei de roupa junto com você, meu Príncipe! Pode ser assim?

 

O Lagartão aceitou, acreditando ser uma brincadeira dela, e tirou a primeira capa colocando a em cima do tapete. Maria tirou uma saia e rezou uma Ave-Maria. E foram assim, peça por peça, até as últimas. Maria então pegou a mão do Príncipe e espetou o dedo dele com o espinho. O jovem sentiu uma dor profunda e soltou um grito. Imediatamente o quarto ficou claro como o dia e no meio estava um rapaz bonito, forte e bem feito! Belo como o sol! As sete capas ficaram transformadas em mantos lindos e as sete saias em flores de laranjeira. Maria e o Príncipe acordaram todos do palácio para contar que o encanto tinha terminado e fizeram sete dias de muita festa.

E foram todos muito felizes!

Felizes como Deus com os anjos! Felizes para sempre

Adaptação de Augusto Pessôa

O FILHO DO PESCADOR

 

Era uma vez um pescador muito pobre. Um dia que não tinha nada para dar de comer aos filhos, disse para a mulher que ia ao mar ver se pescava alguma coisa. Levou o filho caçula, que era um rapazinho muito trabalhador, para ajudar. Chegou lá e lançou a rede três vezes, mas não conseguiu pescar nada. De repente, do nada, surgiu um navio muito rico. Da embarcação veio uma bela voz de mulher que dizia assim:

 

- Pescador, dê para mim esse rapazinho que está aí?

 

O pescador respondeu:

 

- Não posso! O rapaz é da mãe!

 

A bela voz disse:

 

- Pois então volte para casa e diga para sua mulher me dar o menino. Se você fizer assim eu encho seu barco de dinheiro.

 

O pescador voltou e disse para a mulher:

 

- Mulher, não trouxe peixe nenhum, mas encontrei lá um navio muito rico, e ouvi lá uma voz de mulher de dentro do navio, pedindo nosso menino. Se eu desse nosso filho, ela enchia meu barco de dinheiro. E então mulher, o que eu faço?

 

A mulher respondeu:

 

- Estamos passando necessidade. Quem sabe, lá no barco, o nosso menino não encontre melhor sorte. E ainda por cima pode nos ajudar. Pois então, dê o nosso filho!

 

O pescador foi para o mar com o filho outra vez. Lá encontrou o navio no mesmo lugar. Tornou a jogar a rede como da outra vez e não tirou nada do mar. Depois ouviu outra vez a voz de mulher que vinha de dentro do navio:

 

- Pescador, dê para mim esse rapazinho, que encho seu barco de dinheiro !

 

O pescador respondeu:

 

- Dou!

- Pois então, traz o barco para perto do navio!

 

O pescador assim fez. A voz pediu para o rapaz subir no navio. Apenas o menino subiu a bordo, começou logo a cair dinheiro no barco do pescador. Mas o homem disse que não queria mais dinheiro. Ele tinha medo que o barco afundasse. O dinheiro parou de cair. O navio foi embora com o rapaz e o barco do pescador voltou para terra.

Quando o navio chegou num porto, o caçula ouviu a voz dizer:

 

- Salte nesse porto!

 

O rapaz foi para terra e viu uma carruagem muito rica, puxada por seis cavalos. E ouviu a voz dizer:

 

- Entre nessa carruagem!

 

O rapaz assim fez. E a carruagem levou o menino até uma praia linda onde tinha um palácio muito rico. O filho do pescador entrou no castelo por uma porta de ouro. Mas depois que ele estava lá dentro, a entrada sumiu e o menino não encontrou nenhuma porta para sair. Ele foi até um salão onde tinha uma grande mesa cheia de comida. Ele comeu bastante.

Quando a noite chegou, ficou tudo escuro. Não tinha luz no castelo. Apesar dos vários candelabros, a escuridão tomava conta de tudo porque não tinha uma vela se quer para ser acesa. Assim ficou o rapaz por um ano: a mesa sempre farta, a escuridão da noite e a solidão. E o tempo passou lentamente. Até que um dia ele ouviu novamente a voz que disse:

 

- O que você acha desse palácio?

 

E o rapaz respondeu:

 

- Acho bonito! Não me falta nem comer, nem beber. Só fico triste porque vivo sozinho, não tem luz e nem sei quem fala comigo!

 

A voz então disse:

 

- Dentro desse palácio existem três quartos secretos! Um tem roupas, outro tem um grande tesouro e no último ninguém pode entrar! Entre no quarto das roupas e escolha a que mais agradar!

O rapaz correu pelo palácio e encontrou os quartos. Um deles estava repleto de riquezas, o outro cheio das roupas mais finas e o último tinha a porta trancada. Ele voltou ao quarto das roupas e escolheu uma roupa de rei. A roupa era encantada e mal ele a vestiu, ficou logo certinha no seu corpo. O rapaz escolheu também uma bela espada. Depois voltou e disse:

 

- Tenho agora comida e roupas dignas de um rei! Mas ainda não sei de quem é a voz que fala comigo!

 

E a bela voz respondeu:

 

- Sou uma princesa que está prisioneira! E só um guerreiro valoroso poderá me libertar!

 

E o rapaz respondeu:

 

- Não sou guerreiro! Mas vou libertar você de qualquer prisão!

 

E a princesa explicou:

 

- Estou presa no fundo do mar dentro de uma grande concha protegida por uma serpente marinha! Para me libertar você             tem que entrar no terceiro quarto!

 

E o rapaz perguntou:

 

- A porta está trancada! Como faço para entrar no terceiro      quarto?

 

A princesa pediu:

 

- Espere nascer o dia! Nas primeiras horas da manhã, você deve ir a praia e pegar um pouco de água do mar. Volte ao castelo e derrame a água do mar na fechadura da porta, mas só de noite! Com isso a porta vai abrir e você saberá como me libertar!

 

O rapaz assim fez, esperou amanhecer o dia e foi na praia pegar um pouco de água do mar. Voltou ao castelo e ficou sentado em frente à porta do terceiro quarto esperando a noite chegar. Quando o sol foi embora, o rapaz derramou a água na fechadura da porta e ela se abriu. O rapaz entrou no quarto. Lá dentro uma vela acendeu e depois outra e outra e mais outra. Várias velas acenderam suspensas no ar. No meio do quarto tinha uma mesa com uma toalha branca. Em cima da mesa uma esponja, uma rede de pesca e uma espinha grande de peixe. O rapaz ouviu novamente a bela voz de mulher falar:

 

- Pegue a esponja, a rede e a espinha! Amanhã bem cedo vá até a praia e jogue a esponja na água. A esponja vai leva-lo             até o fundo do mar. Lá você encontrará a concha que é protegida por uma serpente marinha. Se a serpente estiver de        olhos fechados ela está acordada. Se tiver de olhos abertos, ela está dormindo! Jogue a rede na serpente e depois bata     com a espinha na concha!

 

O rapaz fez exatamente o que a voz mandou. Pegou a esponja, a rede e a espinha e esperou amanhecer o dia. De manhã foi a praia e jogou a esponja no mar. A esponja cresceu. O rapaz entrou dentro da esponja que o levou para o fundo do mar. Chegando lá, o rapaz viu a concha com a serpente marinha. A serpente tinha os olhos abertos então, estava dormindo. O rapaz jogou a rede sobre a serpente e depois cortou sua cabeça com a espada para acabar com todo o mal. Bateu na concha com a espinha de peixe e a concha se abriu. Lá dentro, a Princesa mais linda que se pode imaginar. O rapaz colocou a princesa dentro da esponja e os dois voltaram para o castelo. Quando chegaram, já era noite e o castelo estava todo iluminado e cheio de gente: criados, soldados e o povo todo fazendo festa. O rapaz se tornou Rei, casou com a princesa e os dois governaram com muita sabedoria vivendo felizes por muitos e muitos anos.

ADAPTAÇÃO AUGUSTO PESSÔA