CONTOS

DE ANIMAIS

O MACACO E A COTIA

 

O Macaco estava na beira da estrada cuidando da vida dos outros e com a cauda  atravessando o caminho. Perto dele uma cotia comia uma frutinha enquanto tomava o sol da manhã. Ela estava tão feliz que nem reparava no olhar de reprovação do macaco. O danado murmurava consigo mesmo:

 

- Mas olha só! Que descuidada! Fica ai olhando pro nada... comendo essa fruta... tem que tomar cuidado se não pode acontecer uma desgraça!!

 

A cotia se espantou:

 

- Falou comigo, compadre macaco?

 

E o macaco respondeu:

 

- E com quem poderia ser, dona cotia? A senhora é muito distraída! Fica aí... olhando para o nada! Olha que pode passar um carro por essa estrada e arrancar o seu rabo!

 

A cotia se espantou de novo:

 

- Mas eu não tenho rabo, seu macaco!

E o macaco insistia:

 

- Isso a senhora diz! Mas depois que perder o rabo não reclame comigo!

 

Nisso veio devagar pela estrada um carro de boi. Vinha com seu gemido rouco e lento deixando duas trilhas pela estrada. E o Macaco continuava na falação:

 

- Cotia, preste atenção! Cuidado com seu rabo! Aqui nessa estrada passa muito carro de boi!

 

A Cotia cada vez mais espantada não sabia nem mais o que dizer. O carro de boi se aproximava devagar e já se ouvia aquele ronco grave. E o macaco enquanto balançava devagar o rabo estendido na estrada continuava a dar conselhos para a cotia:

 

- O rabo é uma coisa muito importante! Não se deixa ele solto por aí! Olha... escute só... está se aproximando um carro de boi! Se a senhora não prestar atenção pode perder seu rabo! Depois vai ficar reclamando!

 

E a cotia se aborreceu:

 

- Mas, criatura, eu não posso perder uma coisa que eu não tenho!!

 

E o macaco:

 

- E ainda por cima é mau criada!! Depois não diga que eu não avisei!

 

Nesse exato momento o carro de boi estava bem em cima deles. O macaco tão preocupado com o rabo que a cotia não tinha esqueceu do seu. O carro gemeu forte e as duas rodas poderosas, lentas e pesadas passaram por cima da cauda do pobre macaco. O bicho deu um grito terrível e saiu aos saltos. Deve estar agora em casa pensando que é melhor cuidar da sua vida que da vida dos outros.

 

 

ADAPTAÇÃO DE AUGUSTO PESSÔA

 

 

 

 

O URUBU E O GAVIÃO

 

Diz que o gavião estava voando de uma forma magnífica pelos céus. De um jeito que só ele sabe fazer quando viu lá embaixo o urubu. A ave preta estava muito triste e o garboso gavião se aproximou:

 

- O que houve, compadre urubu? Porque essa tristeza toda??

 

E o urubu no seu desalento foi falando:

 

- Ah, amigo gavião, e não é pra ficar triste? Tô com fome e não tenho nada pra comer!

 

E o gavião começou a zombar do urubu:

 

- Ora, que bobagem! Mas porque o amigo não faz como eu que sou forte e poderoso? Tem que sair voando por aí para encontrar comida!!

 

E o urubu explicou:

 

- Compadre, eu não sou como o senhor! Só como o bicho morto e frio! Só como se Deus permite!

 

E o gavião continuou a zombaria:

 

- Pois perde tempo esperando! Tem que fazer como eu que saio voando por aí e encontro caça viva e com sangue quente! Comer carne morta e fria? Que nojo!!

 

E o urubu resignado:

 

- Cada um como Deus fez!

 

O gavião se emplumou todo e respondeu:

 

- Pois fique por aí esperando sua comida que eu vou me fartar!

 

E o gavião saiu voando todo empolgado deixando o urubu quase morto de fome. O garboso caçador foi pelo céu e logo encontrou um bando de rolinhas. Mirou na mais gordinha delas e chispou no ataque. A rolinha era gorda, mas era esperta. Saiu fugindo na maior disparada. E o gavião atrás da rolinha e a pobre fugindo de seu caçador. Até que a avezinha viu uma árvore com um buraco bem no meio. A pequena bateu mais forte as asas e foi seguida pelo gavião. A rolinha passou direto pelo buraco, mas o gavião, que de tão acelerado não conseguiu desviar, entrou direto no buraco e, por ser maior, ficou preso. Todo machucado tentou se livrar daquela prisão, mas não conseguiu.

Lá onde estava, o urubu começou a pensar. Talvez o gavião tivesse razão. Ficando ali parado ele não conseguiria nada. Meio fraco, o coitado saiu voando. Ia assim, sem ter sucesso, até que passou pela árvore onde estava preso o gavião. O prisioneiro pediu desesperado:

 

- Compadre urubu, me ajude!

- Mas ajudar o senhor? O senhor que é tão forte e poderoso!

- Estou preso! Se o senhor me salvar a gente pode caçar junto!

- Compadre, como já lhe disse antes: só como o que Deus me dá! Morto e frio! Por isso... esfrie, compadre! Esfrie!

 

O urubu ficou voando por ali esperando a hora de se alimentar.

 

Adaptação de Augusto Pessôa de conto popular

narrado por José Raimundo dos Santos

em Vitória da Conquista (BA)

  

 

A CASA DO URUBU

 

Era uma vez um urubu que voava tranqüilo. Majestoso no seu vôo solene. Estava muito tranqüilo aproveitando esse voar magnífico. Estava tão distraído que nem percebeu o que vinha por aí. De repente caiu uma chuva tão pesada que parecia que o mundo ia acabar. Era chuva pesada. De dar medo. Raio e trovão. Trovão e raio. Com certeza ia alagar o mundo. O urubu não quis saber de mais conversa, foi voando como um raio e, sem olhar pra aqui e nem pra acolá, pousou no telhado de uma casa velha. Ficou olhando como as outras aves, que voavam tão rasteiro, se arranjariam, quando ele, rei dos ares, não tinha onde se esconder. Umas pombas alvoroçadas vinham também fugindo da tempestade e entraram nos pombais como se entrassem nas suas casas. E vai o urubu falou assim:

 

- Deixa vir o Sol que eu também vou fazer minha casa!

 

Depois vieram as andorinhas e se esconderam na beirada das telhas. E o urubu tornou a dizer:

 

- Eu também vou fazer minha casa.

 

Depois vieram as cambaxirras e se enfiaram no buraco de um muro. Um buraco logo em frente do urubu. O pássaro ficou com inveja. As cambaxirras ficaram muito quietinhas, muito arrumadinhas no seu canto. E vai o urubu e disse:

 

- Eu também vou fazer minha casa.

 

Depois um joão-de-barro, morador velho de um ipê seco, meteu a cabecinha fora do buraco de sua casa de terra e ficou espiando a chuva. O urubu tornou a dizer:

 

- Eu também vou fazer minha casa.

 

A chuva caía que não era brinquedo. Uma coisa terrível que parecia não ter fim. O vento assobiava danado de bravo. Os trabalhadores vieram correndo da lavoura e entraram na casa onde o urubu estava em cima do telhado. O coitado do urubu estava molhadinho como um pinto e jurando por Deus Nosso Senhor que quando surgisse o Sol ele ia fazer sua casa.

Mas...

Como tudo que é mal não dura tanto... Veio o Sol que iluminou e aqueceu todo o lugar. O urubu, sentindo aquele calor gostoso, não quis saber de mais nada. Sacudiu as asas e voou para esquentar o corpo. Logo que ficou enxuto e bem lá em cima, não se lembrou mais de fazer a sua casa e, muito prosa, ia vendo que os outros pássaros não podiam chegar onde ele estava. Ele voava muito alto. Longe das nuvens. Quando desceu, encontrou com a cambaxirra que estava muito preocupada com a casa de seu compadre. Nervosa ela perguntou ao urubu:

 

- Quando o compadre vai fazer sua casa? Quer ajuda?

 

E ele sem querer ser deselegante, mas com pouca paciência respondeu:

 

- Aí, cambaxirrinha... Não quero fazer casa! A minha casa é o céu! Você tem casa, mas não é capaz de ir aonde eu vou.

 

E batendo as asas com força o urubu gritou:

 

- Quem tem asa... Pra quê quer casa?

 

E acabou a história.

 

 

Adaptação de Augusto Pessôa

 

 

 

O MACACO E O REI JACARÉ

 

Diz que o macaco morava num lugar onde tinha um monte de bananeiras. Ela cuidava das árvores que davam pra ele frutos suficientes para sua alimentação. E como o macaco cuidava muito bem das bananeiras os frutos eram os mais gostosos da floresta.

Nesse mesmo lugar vivia um jacaré enorme. Muito grande mesmo. Com mais de três metros de cumprimento. Por ser tão grande e forte ele decidiu que seria o rei daquelas paragens. E ninguém ousou desobedecer. O jacaré gostava muito de bananas e espichava o olho para as frutas do macaco. O suposto rei resolveu roubar as bananas do seu dono. Ordenou que o papagaio pegasse as frutas e trouxesse para ele. A ave tentou pegar, mas o macaco não arredava pé daquele lugar e não deixava ninguém se aproximar de suas bananas.

Mas o papagaio era esperto e inventou uma história para enganar o macaco. Chegou de mansinho e foi puxando conversa:

 

- Como vai, macaco?

- Vou bem, papagaio! E você?

 

E o penoso:

 

- Eu estou bem! Graças a Deus! E o seu irmão melhorou?

 

Macaco estranhou:

 

- Meu irmão? Melhorou? Como assim? Não sabia que ele estava doente!

      

E o papagaio jogou uma conversa mole:

 

- Ih... não sabia, não? Diz que seu irmão está muito doente! Está morre não morre!!

 

O macaco ficou desesperado:

 

- Meu irmão... coitado! Mas como é que você soube disso, seu papagaio?

- Ah... as notícias correm... os ventos trazem... Conheço muitos pássaros que moram perto do seu irmão e me disseram que ele está muito mal sem fala!

 

 O macaco ficou preocupado:

 

- Coitado do meu irmão! Eu vou lá fazer uma visita! Eu tenho que ajudar! Ah... mas como eu vou deixar minhas bananas? Quem é que vai cuidar das minhas frutas?

 

E o papagaio:

 

- Ah... pode ir sossegado, amigo! Eu tomo conta das suas bananas pra você!

 

O macaco saiu correndo pra casa do irmão e não entendeu nada quando chegou lá. O irmão estava muito bem de saúde pulando e brincando todo pimpão. Só entendeu quando voltou para sua casa e não encontrou nenhuma banana pra contar a história.  Ele foi tomar satisfações com o papagaio que muito sem graça tentou explicar:

 

- Ih, macaco... fiz isso obedecendo as ordens do rei jacaré! Eu não posso com ele e tive que obedecer!

 

O macaco ficou com muita raiva:

 

- Rei jacaré? E quem disse que esse fuleiro pode ser rei? Eu vou na casa dele pegar as minhas bananas de volta!

 

A cobra que era muito fofoqueira, estava passando por ali, ouviu a conversa e foi ligeira até o rei jacaré contar tudo o que macaco falou. O monarca ficou furioso e gritou alto:

 

- Ah... é assim? Quero ver se esse macaco é mesmo valente! Quero ele aqui na minha presença hoje mesmo!!

 

A própria cobra foi levar o recado ao macaco que logo começou a tremer que nem uma vara verde. Ele era valente só nas palavras. A ideia de enfrentar o tamanho e os grandes dentes de sua majestade jacaré o apavorou completamente. Mas... que jeito! O outro era rei e tinha que ser atendido. Mas se o macaco não era muito valente, era muito inteligente e logo bolou um plano para enganar o jacaré. Passou pelo corpo todo uma cera muito grudenta e foi para casa do monarca.

O rei jacaré quando viu o macaco abriu a grande boca e falou com voz grossa:

 

- Ouvi dizer que você queria vir aqui tomar de mim, o rei, essas bananas! Isso é verdade?

- De jeito nenhum, majestade! Eu e minhas frutas só existimos para servi-lo!

- Fico satisfeito em saber disso! - disse o monarca – Sem dúvida foi uma mentira! Senta ai! Quero falar com você! Mas sente de frente pra mim e sem tocar nas bananas que estão ai atrás!

 

O macaco sentou com jeito e apoiou com força as costas, inteiramente cobertas de cera grudenta, nas bananas. E o rei jacaré continuou a conversa:

 

- Disseram pra mim que você conhece muitas histórias, anedotas e adivinhas! Porque não conta uma pra mim?

- Com todo prazer, majestade! Não sou rei como o senhor, mas dou minhas cacetadas! Vou propor uma adivinha!

 

O macaco se ajeitou, apertou mais as costas nas bananas fazendo que as frutas grudassem ainda mais na cera e disse de uma vez:

 

- Majestade, diga logo sem demora

Como se fosse uma canção:

Como posso pegar uma coisa

Sem usar a boca, o pé ou a mão?

 

O rei jacaré pensou... pensou, mas não descobriu a resposta.

 

- Isso é impossível, macaco! Ninguém pode pegar nada sem usar a boca, o pé ou a mão!

- Pode sim, majestade! É só usar uma cera grudenta nas costas, seu bobalhão!

 

O macaco disse isso, deu um pulo e virou de costas para o jacaré mostrando as bananas grudadas na cera. O monarca ficou furioso abriu o bocão para engolir o macaco de uma só vez. A sorte é que o espertalhão era rápido e saiu em disparada dando saltos. Mas o rei jacaré estava com muita raiva e correu atrás do macaco. E foi um corre-corre desesperado. O macaco vendo que podia ser alcançado subiu numa montanha muito alta. O monarca foi atrás. Quando o macaco estava bem no alto, na beira de um precipício,  comeu algumas bananas e jogou as cascas no chão. Não demorou muito apareceu o rei jacaré com a boca cheia de dentes aberta. E o macaco gritou:

 

- Não se aproxime de mim se não vai se arrepender!

 

E o jacaré bufando de raiva rosnou:

 

- Eu sou um rei! Um rei poderoso e vou acabar com você!

 

E o macaco respondeu:

 

- É rei coisa nenhuma! Não passa de um bobalhão! Não se aproxime de mim porque será o seu fim!

 

O jacaré explodindo de ódio foi com tudo pra cima do outro. Quando o monarca chegou bem perto o macaco deu um pulo para o alto. O jacaré tentou abocanhá-lo no ar, mas escorregou nas cascas de banana e caiu no precipício desaparecendo para sempre.

Os bichos ficaram sabendo da façanha do macaco e resolveram aclamá-lo o novo soberano. E o nosso herói reinou por muitos anos com muita sabedoria e prudência.

 

 

 

ADAPTAÇÃO DE AUGUSTO PESSÔA

 

 

 

 

O SAPO ENCANTADO

 

Era uma vez um príncipe guerreiro que caçava pela floresta e encontrou uma velha sentada a beira de um riacho. O jovem achou que a velha precisava de ajuda e se aproximou:

 

- Precisa de alguma coisa, boa senhora?

 

A velha olhou para ele e disse de forma estranha:

 

- Preciso de sua beleza e juventude!

 

O príncipe não entendeu, mas a velha, que era uma bruxa medonha, fez um gesto mágico. De suas mãos saiu uma luz estranha que envolveu os dois. Aquela luz ficou intensa e quando sumiu o príncipe tinha se transformado em um sapo e a velha bruxa numa linda e jovem mulher. A bruxa transformada colocou uma pedra em cima do sapo e disse:

 

- Você agora vai ficar assim! Só vai voltar ao normal se alguém salvar você. E ainda você terá que salvar essa pessoa por três vezes. E isso nunca vai acontecer!

 

Ela disse isso e saiu gargalhando. O pobre sapo ficou ali esmagado pela pesada pedra.   

Passou um tempo e um lavrador que caminhava por uma estrada ouviu uns gemidos estranhos. Uma coisa esquisita que dava até pena. Ele começou a procurar e o barulho só aumentava. Até que viu perto de um riacho o sapo preso. O coitado do sapo gemia muito embaixo daquela grande pedra. O bicho gemia alto como se sentisse muita dor. O lavrador ficou com pena e livrou o sapo daquela prisão. Sem saber que na verdade estava salvando um príncipe. O sapo se sacudiu todo e olhou para o lavrador como se agradecesse muito. Olhou, saiu pulando e sumiu no mato.

Passou muito tempo.

Uma noite, o lavrador viajava por uma estrada deserta, quando sentiu que um sapo o acompanhava. Ele não ligou até que chegou numa grande pedra. Decidiu contornar a pedra, mas aconteceu uma coisa estranha. Parecia até que o bicho falava com ele e dizia assim:

 

- Um, que bum! Um, que bum!

Não vai por aí! Cuidado!

Um, que bum! Um, que bum!

Vai para o outro lado!

 

O lavrador ficou meio assustado em ver um sapo falando. Meio cismado, e muito admirado de ver um bicho falar, aceitou o conselho. Foi pelo outro lado e viu que um lobo enorme estava a espreita esperando quem passava para atacar. O lavrador pegou num pau bem grande, se aproximou da fera e o enxotou. O lobo saiu fugindo sem entender o que tinha acontecido. O lavrador procurou pelo sapo, mas ele tinha desaparecido. O homem continuou seu caminho.

Mas a frente viu que o sapo voltou a seguir seu caminho. O lavrador não estranhou. Até que viu uma caverna a distância. E o sapo voltou a falar:

 

- Um, que bum! Um, que bum!

Não vai por aí! Cuidado!

Um, que bum! Um, que bum!

Siga para outro lado!

 

O lavrador ficou cismado. Foi pelo mato e ficou observando o que podia sair da caverna. Não demorou muito e saiu de lá um leão enorme que o engoliria com uma bocanhada só.  O homem viu que estava ao lado de um monte de pedras. Pegou os pedregulhos e atirou no leão que saiu correndo sem saber quem o atacava. O lavrador procurou mais uma vez o sapo, mas ele tinha sumido. O homem continuou seu caminho.

Bem mais a frente o sapo voltou a seguir seu caminho. O lavrador começou a caminhar por uma estrada cercada de mato alto. E o sapo voltou a falar:

 

- Um, que bum! Um, que bum!

Não vai por aí! Cuidado!

Um, que bum! Um, que bum!

Fuja para outro lado!

 

Disse isso sumiu. Mas o lavrador não sabia para onde podia ir. De repente pularam na frente do homem três bandidos armados até os dentes. Os homens gritaram juntos:

 

- A bolsa ou a vida!

 

O homem estava cercado. Não tinha como fugir. Pensou em gritar, mas se o fizesse seria morto ali mesmo. Estava nesse desespero quando surgiu um jovem guerreiro vestido numa armadura e de lança em punho. O jovem investiu contra os ladrões. Foi uma briga tremenda. O guerreiro lutava como se tivesse a força de dez homens. Logo os bandidos foram dominados e amarrados a uma árvore. O pobre lavrador ajoelhou aos pés do guerreiro e agradeceu por ter sido salvo. Mas o guerreiro ajudou o homem a levantar e disse:

 

- Não tem que agradecer nada. Eu é que tenho que agradecer. O senhor salvou a minha vida. Sou aquele sapo que o senhor tirou de baixo da pedra.

 

O príncipe guerreiro contou para o lavrador o que a bruxa tinha feito com ele. O rapaz ficou tão agradecido que levou o lavrador para o seu palácio, um reino muito rico, e deu para ele um alto posto.

E a bruxa?

Bom, quando o príncipe se desencantou ela voltou a ficar velha. Mas voltou com tanta força que explodiu numa nuvem de fumaça.

E acabou a história.

 

 

ADAPTAÇÃO DE AUGUSTO PESSÔA

 

 

A ONÇA E O GATO

 

 

A onça pediu ao gato para lhe ensinar a pular, e o gato prontamente lhe ensinou. Depois indo juntos para a fonte encontraram lá o rato, e então disse a onça para o gato:

 

- Compadre, vamos ver quem de um só pulo pega o camarada rato?

- Vamos, disse o gato.

- Só você pulando adiante, disse a onça.

 

O gato pulou em cima do rato, a onça pulou em cima do gato. Então, o gato pulou de banda e se escapou. A onça desapontada disse:

 

- Assim, compadre gato, é que você me ensinou?! Principiou e não acabou...

 

O gato respondeu:

 

- Nem tudo os mestres ensinam aos seus aprendizes.

 

 

Adaptação de Augusto Pessôa

 

 

 

HISTÓRIA DA BARATINHA

 

Há muito tempo, na época dos avós de nossos avós, numa aldeia muito distante, Dona Baratinha fazia uma boa faxina na sua casa. Varrendo tudo e limpando os lugares mais escondidos. Até que ela encontrou uma moeda de ouro. Aquilo valia uma fortuna. Dona Baratinha pegou a moeda, guardou numa caixinha e pensou: Estou rica!

Mandou reformar a casa, comprou roupa nova e ficou mais bonita ainda. Mas sentia que faltava alguma coisa. E foi então que ela teve uma idéia: pôs uma fita no cabelo e foi para janela cantar:

 

- Quem quer casar com a senhora Baratinha que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?

 

Apareceu logo um pretendente: garboso, charmoso e com uma crina penteada. Era o Cavalo.

Dona Baratinha quando viu o Cavalo com a crina penteada, charmoso e garboso, suspirou e perguntou:

 

- Senhor Cavalo, como faz ao amanhecer?

 

O Cavalo garbosamente deu aquela relinchada!

Dona Baratinha tomou um susto e disse:

 

- Ai, senhor cavalo! O senhor é muito bonito... é muito garboso, mas eu não vou agüentar esse barulho todo!! Desculpe...  Mas eu não quero não!

 

O cavalo foi embora e a Baratinha continuou à janela a cantar:

 

- Quem quer casar com a senhora Baratinha que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?

 

Apareceu o segundo pretendente: elegante, com um pelo bonito, muito alerta e valente. Era o cachorro.

Dona Baratinha quando viu o cachorro, todo elegante, suspirou e perguntou:

 

- Senhor cachorro, como faz ao amanhecer?

 

O cachorro encheu o peito e latiu. Latiu alto!

Dona Baratinha tomou um susto e disse:

 

- Ai, senhor cachorro! O senhor é muito bonito... é muito elegante e valente, mas eu não vou agüentar esse barulho todo!! Desculpe...  Mas eu não quero não!

O cachorro foi embora e a Baratinha continuou à janela a cantar:

 

- Quem quer casar com a senhora Baratinha que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?

 

De repente surgiu ele, todo ligeirinho e com um bigode nervosinho e simpático. Era o Rato.

Dona Baratinha quando viu o Rato com aquele bigodinho simpático, suspirou ... fundo! E perguntou:

 

- Senhor Ratão, como faz ao amanhecer?

 

O Rato deu um guinchinho. Um barulhinho bem baixinho e gostoso. Dona Baratinha ficou encantada. Ali mesmo marcaram a data do casamento. A Baratinha resolveu preparar uma feijoada para a festa e o Senhor Ratão mandou enfeitar a igreja.

A noiva preparou um vestido com a cor das nuvens do céu. E o noivo mandou fazer um fraque com a cor da noite.

No dia do casório, Dona Baratinha vai para a igreja acompanhada das damas.

O Ratão também vai para a igreja, mas quando passa na frente da casa da Baratinha  sente um cheiro bom, um cheiro gostoso, um cheiro quente... era a feijoada que soltava um aroma delicioso. O Ratão entra na casa e vai até a cozinha seguindo aquele perfume. Em cima do fogão vê o panelão de feijão fervendo. Fica encantado com aquele cheiro e vai se aproximando mais da panela. Chega perto, bem pertinho e - tibum!- cai dentro da panela de feijão.

Na igreja, Dona Baratinha e os convidados esperam e esperam... até que alguém sugere:

 

- Por que não fazemos primeiro a festa e depois o casório?

 

Todos concordaram e foram para a casa da Baratinha.

Chegam lá e encontram o Ratão dentro da panela de feijão! Cozidinho... cozidinho no meio do panelão.

Dona Baratinha se aproxima, sente um aperto no coração e chora muito. Chora por uma semana. Depois, põe a fita de novo no cabelo, vai para a janela e canta:

 

- Quem quer casar com a senhora Baratinha que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?

 

 

ADAPTAÇÃO DE AUGUSTO PESSÔA

 

 

 

 

HISTÓRIA DO MACACO QUE ARRANJOU UMA VIOLA

 

Um macaco saiu na rua muito bem vestido. Limpo, cheiroso e arrumado. Mas as crianças não tiveram pena e começaram a zombar do coitado:

 

- Olha o rabo do macaco! Olha o rabo dele!

 

O macaco ficou chateado:

 

- Meninada danada! Meninada malvada! Deixem eu seguir o meu caminho!!

 

Mas as crianças continuavam a zombaria:

 

- Olha o rabo! Olha o rabo dele! Olha o rabo do macaco!

 

Irritado o macaco foi até uma barbearia eu pediu ao barbeiro para cortar o seu rabo. Mas o comerciante não queria atender o seu pedido. Mas o macaco tanto insistiu, pediu e implorou que o barbeiro, que jeito, cortou o rabo do danado.

O macaco, sem o rabo, voltou pra rua e continuou o seu caminho, mas a criançada não perdoou:

 

- Olha o macaco sem rabo! É o macaco cotó! Cadê o rabo, seu rabicó?!

 

O macaco ficou muito furioso e voltou para a barbearia. Chegou e foi falando:

- Seu barbeiro, devolva meu rabo! Esses meninos só sabem implicar comigo! Com rabo ou sem rabo!

 

E o barbeiro respondeu:

 

- Ah.... macaco, não tenho como fazer isso! Já joguei seu rabo fora!

 

O cotó então pediu a navalha do barbeiro.

 

- Já que não tenho mais rabo, dê pra mim a sua navalha!

 

O homem ficou com pena e deu a navalha. E o macaco ficou pensando:

 

- O quê que eu vou fazer com essa navalha??

 

O macaco foi andando e cantando:

 

Fó-Fó!! Foforó!! Fó-Fó!! Foforó!!

Perdi meu rabo e fiquei cotó!

Fê-Fê! Feferê!! Fê-Fê! Feferê!!

Ganhei navalha nem sei pra quê!!

Ganhei navalha nem sei pra quê!!

 

Ia assim cantando quando viu uma mulher que limpava uns peixes. Mas fazia o serviço com as mãos porque não tinha nem faca, nem nenhum objeto cortante. Ao ver aquela cena o macaco perguntou:

 

- Por que você está fazendo esse serviço desse jeito?

- Mas não tá vendo, seu macaco? Não tenho faca!

- Pois não seja por isso... Tem aqui uma navalha!

 

O danado deu a navalha e a mulher ficou contente. Limpou os peixes, cozinhou e deu um para o macaco comer com farinha. O bicho comeu até se regalar e foi embora. Mas no meio do caminho ele se arrependeu de ter dado a navalha e voltou para cobrar. E a mulher respondeu:

 

- Mas eu não dei o peixe para pagar a navalha?

- O peixe é pouco! - reclamou o macaco - Quero mais!

- Dou um punhado de farinha! Aceita?

- Só aceito se for de trigo!

 

A mulher deu a farinha de trigo e o macaco foi embora cantando:

 

Fó-Fó!! Foforó!! Fó-Fó!! Foforó!!

Perdi meu rabo e fiquei cotó!

Fê-Fê! Feferê!! Fê-Fê! Feferê!!

Ganhei navalha já sei pra quê!!

Fí-Fí!! Fifirinha!! Fí-Fí!! Fifirinha!!

Troquei a navalha por farinha!!

Troquei a navalha por farinha!!

 

Ia pelo caminho quando viu um padeiro tentando fazer pão. Mas ele tentava fazer a massa sem farinha. O macaco estranhou:

 

- O que você está fazendo?

- Estou tentando fazer pão!

- Mas cadê a farinha?

- Eu não tenho...

 

O macaco ficou com pena do padeiro e deu a farinha de trigo e foi embora. Mas foi ele virar na curva da estrada para se arrepender. Voltou e quis a farinha de volta. Mas o padeiro respondeu:

 

- Ih, macaco! Já misturei a farinha na massa! Não sobrou nenhum restinho...

 

O macaco já ia brigar, mas o padeiro prometeu que daria um pão. Terminou de assar a fornada e deu um pãozinho bem quentinho para o reclamante. Mas macaco estava sem fome. Ele foi andando e cantando assim:

 

Fó-Fó!! Foforó!! Fó-Fó!! Foforó!!

Perdi meu rabo e fiquei cotó!

Fê-Fê! Feferê!! Fê-Fê! Feferê!!

Ganhei navalha já sei pra quê!!

Fí-Fí!! Fifirinha!! Fí-Fí!! Fifirinha!!

Troquei a navalha por farinha!!

Fá-Fá! Fafarinho!! Fá-Fá! Fafarinho!!

Troquei a farinha por pão quentinho!!

Troquei a farinha por pão quentinho!!

        

Ia pelo caminho sem saber o que fazer com aquele pão. Até que encontrou um pastor com uma viola. O rapaz estava com uma cara estranha. Parecia que estava morrendo de fome. O macaco olhou para o pastor e fez a proposta:

 

- Você parece que está com muita fome! E saco vazio não para em pé! Não quer trocar sua viola por esse pão que ainda está quentinho na minha mão?

 

O moço aceitou a troca. O macaco pegou a viola e continuou no caminho. E foi andando e cantando assim:

 

Fó-Fó!! Foforó!! Fó-Fó!! Foforó!!

Perdi meu rabo e fiquei cotó!

Fê-Fê! Feferê!! Fê-Fê! Feferê!!

Ganhei navalha já sei pra quê!!

Fí-Fí!! Fifirinha!! Fí-Fí!! Fifirinha!!

Troquei a navalha por farinha!!

Fá-Fá! Fafarinho!! Fá-Fá! Fafarinho!!

Troquei a farinha por pão quentinho!!

Fu-Fú! Fufuola!! Fú-Fú! Fufuola!

Troquei meu pão por bela viola!!

Troquei meu pão por bela viola!!

 

Ia feliz o danado até que chegou num rio largo. O macaco queria travessar aquela água, mas a correnteza era forte e a distância até a outra margem era grande. O macaco tentou falar com as águas:

 

- Seu rio, deixe eu passar! Quero ir para a outra margem! Quero continuar a caminhar!

 

Mas o rio parecia que não ligava para os apelos do macaco. O pobre sentou numa pedra e com a viola começou a cantar:

 

Por bobagem meu rabo perdi

Mas com ele navalha arranjei!

Pela navalha recebi farinha

E por ela pão quentinho ganhei!

      

Transformei meu pão em viola

E quero continuar meu caminho!

Mas o rio não me dá bola!!

Quero continuar meu caminho,

Mas esse rio ninguém enrola!

 

O macaco cantou tão bonito que o rio ficou com pena. Num passe de mágica as águas se abriram e deram passagem para o novo violeiro. Macaco seguiu seu caminho e anda pelo mundo cantando suas histórias.

 

 

 

ADAPTAÇÃO DE AUGUSTO PESSÔA

 

 

 

O MACACO E A VELHA

 

Diz que era uma velha tão velha, mas muito velha mesmo. Tão velha quanto pão-dura. A velha não dava nada pra ninguém. Na casa da velha tinha uma bananeira com cada banana maravilhosa. Mas a velha não dava banana pra ninguém. O tempo passou e a bananeira cresceu. E a velha não alcançava mais as bananas. Tinha um cacho bonito lá no alto, mas a velha não alcançava. As bananas já estavam apodrecendo. Nisso passou na frente da casa da velha um macaco. Macaco danado que subia em tudo que árvore. A velha chamou o macaco com uma voz grave:

 

- Macaco, você sobe em tudo que é árvore! Sobe em cima da minha bananeira, pega aquelas bananas, que eu te dou uma!

 

Macaco olhou pra cima, viu aquele monte de bananas e disse:

 

- Quer dizer, velha, que eu vou subir lá em cima, pegar aquele monte de banana pra você e a senhora só vai me dar uma?

- É, macaco!!

- Então está bom!!

 

O macaco subiu rapidinho na bananeira. A velha ficou em baixo esperando as frutas:

 

- Joga as bananas, macaco!!

 

Macaco pegou uma banana.

 

- Essa aqui, velha?

- É, macaco! Joga a banana!!

- Deixa eu ver se está boa!!

 

Macaco descascou a banana, comeu e jogou a casca na cara da velha.

 

- Essa está boa!

 

A velha, em baixo, ficou louca de raiva:

 

- Joga a banana, macaco!

 

Macaco pegou outra banana.

 

- Calma, velha! Deixa eu ver se está boa! Depois vai dar uma dor de barriga e a culpa vai ser minha!

O danado descascou a banana, comeu e jogou a casca na cara da velha. A velha louca gritava:

 

- Joga as bananas, macaco!

- Calma, velha! Deixa eu ver se a banana está boa! Depois vai dar um piriri em você e a culpa vai ser minha!

 

O macaco comeu todas as bananas e jogou as cascas na cara da velha.

Mas a velha jurou vingança.

Na casa dela tinha uma cera. Mas era uma cera muito grudenta. Mesma assim, a velha conseguiu fazer um bonequinho lindo com a cera. Era lindo que dava gosto de ver. Tão bonito que parecia um garotinho. Ela botou o bonequinho na porta de casa, com um cacho de banana na cabeça, e se escondeu. Logo apareceu o macaco. Vendo aquele bonequinho tão bonito o macaco achou que era um garotinho e se aproximou:

 

- O garotinho tão bonito... me dá uma banana!

 

Bonequinho não é garotinho. Bonequinho não fala. E o macaco:

 

- Garotinho, estou falando com você! Me dá uma banana!

 

Bonequinho não fala.

 

- Garotinho, estou pedindo com educação: me dá uma banana!

 

Bonequinho não fala.

 

- Garotinho, se você não me der uma banana eu vou  dar um tapa. Vou contar até três...

 

Bonequinho calado.

 

- E é um...

 

Bonequinho calado

 

- E é dois...

 

Bonequinho mudo.

 

- É três! - PÁ!

 

Macaco deu o tapa e ficou com a mão grudada.

 

- Garotinho, me larga! Larga que vai lá outro tapa: é um... é dois... é três! PÁ!

 

Macaco ficou com a outra mão grudada.

 

       - Garotinho, larga as minhas mãos. Larga se não eu vou dar um chute! Eu vou dar um chute! Um... dois... três... PÁ!

 

Macaco ficou com o pé preso.

 

- Garotinho, se você não me larga agora, vou dar outro chute que você vai sofrer muito. Um... dois... três... PÁ!

 

Macaco ficou com o outro pé preso.

 

- Olha, Garoto, se você não me largar eu vou dar uma cabeçada! Essa cabeçada vai doer tanto! E é um... é dois... é três e... PÁ!

 

Macaco ficou todo grudado no bonequinho.

A velha saiu do esconderijo.

 

- Ah, macaco, agora você me paga!!

 

A velha pegou o macaco e entregou na mão da cozinheira dizendo que queria comer o bicho assado. A cozinheira pegou o facão e começou a esfolar o macaco. E o esfolado dizia assim:

 

- Ai, me esfola devagar porque dói...dói...dói...

 

A cozinheira começou a cortar o macaco em pedaços bem pequenos. E o cortado dizia assim:

 

- Ai, me corta devagar porque dói...dói...dói...

 

A cozinheira começou a temperar o macaco. E o temperado dizia assim:

 

- Ai, me tempera devagar porque dói...dói...dói...

 

A cozinheira colocou o macaco na travessa e pôs no forno. E o assado ainda dizia assim:

 

- Ai, me assa devagar porque dói...dói...dói...

 

A cozinheira tirou a travessa do forno e colocou em cima da mesa. A velha veio e começou a comer o macaco. Ela mastigava e o coitado dizia assim:

 

- Ai, mastiga devagar porque dói...dói...dói...

 

A velha comeu... comeu... comeu aquele macaco todo. Ficou com a barriga desse tamanho. E começou a sentir uma dorzinha... uma dorzinha enjoada... e ouviu aquela voz que vinha lá de dentro:

 

- Quero sair! Quero sair daqui! Quero sair!

 

E a velha, com dor, pedia:

 

- Ai, macaco, sai! Sai macaco!

 

O macaco sem saber o que fazer respondia:

 

- Por onde? Não sei por onde!? Está tudo escuro! Não estou vendo nada!

 

E a velha com muita de dor:

 

- Sai pela boca!

 

Macaco ficou com nojo:

 

- Argh! Pela boca não que tem cuspe!

 

E a velha cheia de dor:

 

- Sai pelos olhos!

 

Macaco ficou com mais nojo:

 

- Argh... pelos olhos não que tem remela!

 

E a velha não aguentando de dor:

 

- Ai, macaco, sai pelo ouvido!

 

E o macaco cada vez mais enojado:

 

- Argh... Pelo ouvido não, que tem cera!

 

E a velha quase explodindo de dor:

 

- Sai, então, pelo nariz!

 

O macaco ficou com tanto nojo, mas com tanto nojo que estranhamente deu até uma risadinha:

 

- Hum... Pelo nariz é que eu não saio mesmo!! Tem meleca!

 

A velha já não sabia mais o que fazer e deu um grito:

 

- Ai, macaco, sai por onde você quiser!

 

A velha disse isso e soltou um PUM! Saiu um monte de macaquinhos de dentro dela dizendo assim:

 

- Eu vi o FIOFÓ da velha!

Eu vi o FIOFÓ da velha!

Eu vi! Eu vi! Eu vi!

 

E acabou a história.

 

ADAPTAÇÃO DE AUGUSTO PESSÔA

In MACACADA

EDITORA ESCRITA FINA

 

 

 

O MACACO E O BICHO FOLHARAL

 

Você sabe o que é aluá? Tem dois tipos de aluá: pode ser um refresco da casca do abacaxi ou pode ser um doce com milho ralado. E essa história começa com o macaco querendo muito comer o aluá, o doce com milho. Mas ele não tinha nem uma espiga em casa. Com muita vontade, o macaco foi até a casa da amiga galinha. Mas a penosa, que conhecia a fama de malandro do outro, não estava querendo conversa:

 

- O quer você quer aqui, macaco?

 

O visitante se fez de ofendido:

 

- Mas, comadre galinha, é assim que você recebe um amigo?

- Sei... amigo... você só sabe é aprontar com todo mundo!

 

E o macaco foi por ai:

 

- Pois vou mostrar pra senhora que essa fama é injusta! Vim aqui fazer um favor para a amiga!

 

A galinha desconfiou:

 

- Um favor? Como assim?

 

E o macaco continuou:

 

- A senhora tem espiga de milho ai?

- Tenho! Mas essa espiga é pra fazer o meu aluá!

- Mas a senhora que é tão distinta vai perder tempo fazendo aluá? Vai estragar as suas penas ralando milho? Cansar suas asas mexendo em panela? A senhora não precisa disso! Dê para mim as espigas que eu levo e faço o aluá! Daqui a umas duas a senhora passa lá em casa e a gente come o aluá sem trabalho nenhum para a amiga!

 

A galinha ficou desconfiada, mas a proposta era boa. Ela também estava com vontade de comer aluá, mas não queria ter muito trabalho. Pensou bem e deu as espigas para o macaco. O danado colocou aquele monte de espigas num saco e foi embora. Mas ele achou pouco. Estava com muita vontade de comer aluá. E foi até a casa da raposa. Chegou e foi logo falando cheio de alegria:

 

- Comadre raposa, quanto tempo!

 

A raposa que era muito metida e conhecia a fama de malandro do macaco respondeu:

 

- O que você quer aqui?

- Mas, comadre, é assim que a senhora recebe os amigos?

- E quem disse que eu tenho amizade com você, macaco?

- A nossa amizade é de longa data! A senhora sabe disso! A amizade é tanta que eu vim aqui para lhe ajudar!

 

A raposa desconfiada quis saber:

 

- Ajudar? Como assim?

 

E o macaco foi por ai:

 

- A senhora tem umas espigas de milho?

- Tenho milho para fazer o meu aluá!

- E a senhora tão elegante vai perder seu tempo precioso fazendo aluá? Vai estragar as suas patinhas ralando milho, mexendo em panela? A senhora me dá as espigas que eu faço todo o trabalho! Daqui a umas duas horas e meia a amiga passa lá em casa que a gente come o aluá! Que tal?

 

A raposa coçou a cabeça. A fama do macaco não era boa, mas ela estava com muita vontade de comer o doce e ao mesmo tempo com uma preguiça danada de fazer. Pensou bem e entregou as espigas para o macaco. O malandro colocou aquele monte de milho no saco e foi embora. Mas o faminto ainda achou pouco. Ele queria muito aluá e foi até a casa da onça. Chegou todo animado e anunciou:

 

- Comadre onça, olha só quem chegou: o seu compadre macaco!

 

A onça era muito mau humorada e não queria conversa:

 

- Comadre uma ova! Eu quero respeito! Desde quando eu dei filho meu pra você batizar, coisa ruim?

 

E o macaco, com voz mansa, tentava enrolar a onça:

 

- O que é isso, amiga? Eu vim aqui justamente mostrar toda a minha amizade pela senhora!

 

A onça quis saber:

 

- E como é que vai ser isso?

 

E lá foi o macaco:

 

- Assim como eu estou dizendo! Vim mostrar a minha amizade! A senhora tem milho guardado?

- Tenho! Mas é para fazer o meu aluá!

- Pois é exatamente nisso que eu vou lhe ajudar! A senhora que é a rainha das matas, a toda poderosa da floresta, a grande caçadora não pode perder seu precioso tempo fazendo aluá, não é mesmo? Não fica nem bem...

 

A onça que era mau humorada, mas era também a personificação da vaidade gostou de ouvir aquelas palavras e perguntou:

 

- E o que tem isso? Como é que eu você vai me ajudar?

- Fazendo o aluá pra senhora! É só me dar as espigas que eu levo pra casa e preparo o doce digno da sua realeza! Depois a senhora passa lá na minha humilde choupana, daqui umas três horas, que o aluá vai estar pronto pra ser saboreado! Que tal?

 

A onça ficou satisfeita com tantos elogios e deu as espigas para o macaco. O esperto colocou tudo no saco e levou pra casa. Era muito milho. Deu um trabalho enorme. O macaco ralou, mexeu, buliu e fez aquele monte de doce. Colocou tudo num grande tacho de madeira e pôs em cima de uma mesa que ficava fora de sua casa do lado de uma árvore comprida. Aquele doce em cima da mesa chegava a brilhar de tão bonito. E o macaco falou consigo mesmo:

 

- Será que está bom? É melhor experimentar um pouquinho...

 

Com o dedo ele tirou um pedaço de doce e comeu. Estava uma delícia. E o macaco falou de novo consigo mesmo:

 

- Mas está maravilhoso!! Se eu comer mais um pouco não vai fazer falta...

 

E o guloso foi de novo com o dedo, tirou mais um pedaço e comeu. Estava inacreditável de tão bom. E o macaco mais uma vez falou consigo mesmo:

 

- Ah... se eu tirar só mais um pedacinho não vai fazer falta, né?

 

E assim foi até não sobrar nem uma lasquinha de aluá. O tacho de madeira ficou limpinho. Passaram as duas horas o macaco subiu na árvore e ficou esperando a primeira visita. Não demorou muito e apareceu a galinha. Chegou de bico empinado e foi logo exigindo:

 

- Macaco, onde está o meu aluá?

 

E o espertalhão se fez de desentendido:

 

- Aluá, galinha? Que aluá?

- Como assim “que aluá”? - perguntou a penosa – Nós não combinamos que eu daria o milho e você faria o aluá?

 

O macaco se espreguiçou e disse bocejando:

 

- Ah... é isso! Ih... Mas isso tem tanto tempo...

 

A galinha foi perdendo a paciência:

 

- Como assim “tanto tempo”? Nós combinamos isso hoje! Eu quero o meu aluá, seu malandro safado!

 

E o macaco se fez de ofendido:

 

- Agora você vê... a gente recebe a criatura na nossa casa e ela vem cheia de ofensa! Cheia de nome feio! Pois fique sabendo, dona galinha, que eu comi todo o aluá!

 

A galinha ficou furiosa:

 

- Seu ladrão! Malandro! Isso é um absurdo!

 

E o macaco:

 

- Absurdo? Absurdo é a senhora entrar na minha casa e ficar me ofendendo! Aposto que minha comadre raposa não vai fazer isso!

 

A galinha quando ouviu o nome de sua inimiga ficou apavorada:

 

- Raposa?... A raposa vem aqui?

 

E o macaco continuou:

 

- Deve estar chegando logo, logo! E, diferente da senhora, a comadre raposa é muito pontual!

 

A galinha ficou desesperada:

 

- Ai, meu Deus! Se a raposa me pega aqui ela acaba comigo!

 

E o macaco se fez de amigo:

 

- Não se preocupe! Eu vou lhe ajudar! Eu não devia porque a senhora foi muito deselegante comigo! Mas eu sou generoso! Esconda-se em baixo da mesa que eu despacho a raposa!

 

Rapidamente a galinha entrou em baixo da mesa. Foi ela se esconder que a raposa chegou. Veio com o nariz empinado e logo exigindo:

 

- Macaco, cadê o meu aluá?

 

O espertalhão subiu um pouco mais na árvore e reclamou:

 

- Mas o que está acontecendo com esse pessoal? Não se diz mais bom dia... boa tarde... boa noite... Cadê a educação desse povo?

- Do que você está falando? - quis saber a raposa.

- Da falta de educação desses bichos! - respondeu o macaco – A galinha também chegou aqui exigindo isso e aquilo!

 

Quando a raposa ouviu “galinha” ficou toda animada:

 

- A galinha está por aqui? Cadê ela?

 

E o macaco:

 

- Nem adianta que eu não vou falar! Mas não falo mesmo! Não falo de jeito nenhum que ela está em baixo da mesa!

 

Num instante a raposa pulou em baixo da mesa e comeu a galinha inteira. Saiu de lá lambendo os beiços e falando assim:

 

- Agora, macaco, eu quero o meu aluá!

 

E o macaco se fez de ofendido:

 

- A senhora é engraçada! Vem na minha casa, almoça a minha visita e ainda fica pedindo aluá! Pois fique sabendo que não tem aluá nenhum! Eu comi tudo!

 

A raposa tentou pular para pegar o macaco, mas não conseguiu. Ficou furiosa e esbravejou:

 

- Você vai ter que descer, seu malandro! E quando descer eu pego você!

 

E o macaco perguntou:

 

- Toda essa confusão por causa de um aluá? Um docinho até meio sem graça...

 

E a raposa cuspia fogo de tanta raiva:

 

- É por isso mesmo, seu moleque!! Eu vou esperar aqui o tempo que for preciso! Você vai descer e eu vou lhe dar uma lição!

 

E o macaco na maior calma:

 

- Não se preocupe, dona raposa! Não vou demorar a descer! Minha comadre onça deve estar chegando e eu tenho que recebê-la muito bem! Porque ela, diferente da senhora, é muito educada!

 

Quando a raposa escutou “onça” ficou muito nervosa:

      

- A onça? A onça vem pra cá?

 

E o macaco:

 

- Claro que vem! Nós somos amigos há muito tempo! Ela vem me fazer uma visita cordial! Porque?

 

E a raposa tremendo respondeu:

 

- A onça quer acabar comigo! Se ela me encontra aqui eu estou perdida!

 

E o macaco se fez de amigo:

 

- Não se preocupe, raposa! Eu vou lhe ajudar! Eu não devia porque a senhora foi muito grosseira comigo, mas eu vou lhe ajudar! Eu sou um bicho bom! Por isso eu vou lhe ajudar! Se esconda de baixo da mesa que eu despacho a onça! Isso é um favor, porque ela é muito minha amiga!

 

Foi a raposa se esconder que a onça apareceu. Chegou falando grosso como é seu costume:

 

- Macaco, eu quero o meu aluá!

 

O malandro subiu bem alto na árvore. Tão alto que a onça não conseguiria alcançá-lo de jeito nenhum e respondeu:

      

- Aluá? Não sei de aluá nenhum, onça!

 

A onça bateu com força na mesa e berrou:

 

- Não estou aqui de brincadeira, macaco! Eu quero o meu aluá agora!

 

E o macaco na maior calma:

 

- Eu não sei o que está acontecendo com esses bichos! A raposa também entrou aqui atrás de aluá...

 

Quando a onça ouviu “raposa” lambeu os beiços:

 

- Raposa? A raposa está aqui?

 

O macaco respondeu perguntando:

 

- Pra que a senhora quer saber?

- Porque eu vou acabar com ela! - respondeu a onça.

- Ah... mas eu não vou dizer onde está a raposa! A senhora pode pedir, pode implorar até de joelhos que eu não digo! Não digo de jeito nenhum que a raposa está em baixo da mesa!

 

Foi o macaco dizer isso que a onça com toda a força jogou a mesa longe. Ela pegou a raposa e engoliu inteirinha. Depois, lambendo os beiços, ela exigiu:

 

- Agora quero o meu aluá!

 

E o macaco se fez de novo de ofendido:

 

- Mas esse povo é muito engraçado mesmo! A senhora vem na minha casa, joga a minha mesa longe, lancha a minha visita e ainda quer sobremesa? Pois fique sabendo que não tem aluá nenhum! Eu comi tudo, onça!


A pintada grandalhona ficou muito furiosa e quis pegar o macaco. Mas o danado estava muito no alto e por mais que ela pulasse não alcançava.

Mas a onça jurou vingança.

A grandona chamou todos os seus primos e mandou eles tomarem conta de tudo quanto era rio. Ela queria matar o macaco de sede. E os primos da onça ficaram vigiando as águas. Podia passar tudo quanto era bicho. Menos o macaco. E o pobre malandro guloso estava que não se aguentava. Depois de ter comido aquele aluá todo ele precisava muito beber água. Mas como? Se os primos da onça estavam de sentinela e não deixavam ele passar de jeito nenhum.

Mas o macaco teve uma ideia: se cobriu todo de mel, foi no matagal e rolou nas folhagens secas. A folhas grudaram e cobriram todo o seu corpo que nem se via o macaco por baixo daquilo tudo. Disfarçado ele foi andando meio capengando para o rio. Um dos primos da onça quando viu aquele bicho estranho comentou com o outro:

 

- Primo, que bicho é aquele?

 

E o outro respondeu:

 

- Não sei, primo! Nunca vi esse bicho!

 

E o macaco sempre capengando começou a falar com uma voz engraçada:

 

- Sou bicho folharal! Sou bicho folharal!!

 

E o primo da onça estranhou ainda mais:

 

- Bicho folharal? Você já ouviu falar desse bicho, primo?

 

E o outro:

 

- Nunca ouvi falar! Bom... mas pelo menos não é o macaco!

 

E o macaco disfarçado começou a beber água. Ficou tão empolgado que foi entrando no rio e se banhando todo. E as águas do rio foram amolecendo o mel, as folhas foram caindo e num instante o disfarce do macaco tinha desaparecido totalmente. Os primos da onça quando viram o espertalhão pularam na água para tentar pegá-lo, mas o macaco foi mais rápido e fugiu rapidinho.

Quando a onça soube que o macaco conseguiu beber água ficou furiosa. Mas logo pensou em um outro plano para pegar aquele malandro. Foi até um caminho onde o macaco sempre passava e mandou os primos abrirem um buraco grande. Ela deitou no buraco e os primos cobriram tudo. Só a boca ficou de fora.

Não demorou muito o macaco veio pelo caminho. Quando viu aquele buraco estranhou, tomou um susto e comentou consigo mesmo:

 

- Menino, eu nunca vi uma coisa dessa: um buraco com dente! Eu já vi dente com buraco, mas buraco com dente é a primeira vez! Mas isso é um perigo! Pode cair uma criança ou uma senhora! Eu vou tapar!

 

Ele pegou uma pedra grande e... TUM... tapou aquele buraco estranho. E o macaco pode viver tranquilo as suas estripulias porque nunca mais se ouviu falar daquela onça.

E acabou a história.

 

ADAPTAÇÃO DE AUGUSTO PESSÔA

In MACACADA

Editora Escrita Fina

 

O PEIXE NO BOLSO

 

Era uma vez um homem jovem e bonito que vivia sozinho numa choupana. Ele era muito pobre e vivia da pesca. Um dia ele saiu bem de manhã pra pescar. Levou a tralha toda que tinha e foi para beira do rio. Armou a vara de pesca e não demorou tempo nenhum, ela começou a envergar. Fisgou e tirou da água um peixe bonito e colorido, mas bem pequenino. Quando ele tirou o anzol da boca do peixe aconteceu uma coisa muita estranha. O peixe falou. E falou assim:


- Não me mate! Por favor, não me mate!

 

O jovem não entendeu nada e o peixe continuou:

 

- Não me mate! Eu vou fazer você ficar muito rico e importante!

 

E o jovem pescador quis saber:

 

- Como vai ser isso?

 

E o peixinho colorido explicou:

 

- Você vai me colocar no seu bolso...

 

O rapaz interrompeu:

 

- No meu bolso? E como você vai respirar?

 

O peixe continuou a explicação:

 

- Eu consigo! E vou fazer de você um homem rico e famoso! Depois que eu conseguir, você me liberta. Pode ser?

 

O rapaz aceitou e colocou o peixe no bolso. Quando o peixe já estava no bolso disse ao rapaz:

 

- Você larga tudo que tem e vai seguir por essa estrada!

 

O rapaz só olhou e o peixe continuou:

 

- Você vai precisar só disso!

 

O peixe cuspiu e quando o cuspe caiu no chão se transformou numa bolsa cheia de moedas. Ele cuspiu de novo e quando caiu no chão se transformou numa espada maravilhosa. A espada de um grande herói. O rapaz pegou esses presentes e seguiu pela estrada. Viajou, viajou muitos dias até chegar numa grande cidade. Quando chegou o peixe falou:

 

- Compre um jornal!

 

O rapaz comprou e leu no jornal o anúncio que o rei do lugar mandou publicar. O anúncio dizia que se alguém conseguisse salvar a princesa, que tinha sido sorteada para ser engolida por um bicho-de-sete-cabeças, se casaria com ela. Esse bicho vivia naquelas bandas para se alimentar. Se os governantes não oferecessem uma pessoa para ele comer, ele destruía o reino inteiro. O rapaz ficou curioso em conhecer a princesa. Tomou informações e saiu à procura dela. Andou pela estrada e encontrou a coitadinha sentada num barranco, perto de uma mata, esperando a hora de ser engolida pelo enorme bicho. Era a moça mais linda desse mundo. Usava uma roupa maravilhosa. O vestido tinha sete saias. Cada saia de uma cor. Os cabelos eram encaracolados e os olhos de um verde muito intenso. Era até um pecado deixar o bicho engolir uma moça tão linda. O rapaz foi chegando de mansinho e, com muita delicadeza, disse:


- Como vai, princesa? O que está fazendo aqui sozinha?


Ela, com ar muito triste, respondeu:


- O meu fim é triste. Estou aqui esperando a hora de ser engolida por um bicho medonho de sete cabeças. Fui destinada para isto.


O moço, com muito jeito, chegou pertinho dela e sentou. Ficou olhando para ela com muita ternura. A princesa, muito preocupada, disse:


- Eu acho bom você não ficar aqui. O bicho pode chegar agora e engolir você também.


Mas o rapaz nem ligou. Chegou mais pertinho da princesa e ficou olhando com mais carinho. Deu um sorriso bem gostoso para ela e começou a alisar os cabelos da bela jovem. Ela se encantou com a beleza do moço e também começou a fazer cafuné no rapaz. De repente, ela adormeceu. E o peixe disse:

 

- Corte um pedaço de cada saia da princesa!

 

O rapaz obedeceu. Com cuidado cortou um pedaço de cada uma das sete saias e guardou em outro bolso. Ficou ali cuidando do sono da linda moça. Até que começou a ouvir um barulho que vinha por perto:

 

- XULEP! XULEP! XULEP!

 

Era o bicho-de-sete-cabeças que estava chegando para devorar a princesa. O moço deu um beijo na testa da linda jovem, pegou sua espada e ficou de tocaia. Quando o bicho estava pertinho da princesa, o rapaz gritou:


- Esse é o seu fim, monstro terrível!


Com velocidade ele agitou a espada e deu fim ao monstro. Aí o peixe falou:

 

- Corte um pedaço da língua de cada cabeça!

 

O rapaz obedeceu. Cortou a metade da língua de cada cabeça do bicho e guardou dentro de uma bolsa. Deixou o bichão mortinho na estrada e levou a princesa para o palácio. E o peixe disse:

 

- Leve a princesa e entregue ao rei!

 

Mas o rapaz não obedeceu. Achava que a princesa devia ir sozinha ao encontro do rei. Deixou a moça na porta do palácio e foi embora.  Ninguém viu os dois na porta do grande castelo. Quando eles se separaram, a princesa deu para o rapaz um lenço azul com um beijo apaixonado. O moço arrumou hospedagem bem perto do palácio e ficou esperando para ver o que acontecia.

Depois disso tudo, passou naquela estrada um carroceiro, com a roupa toda suja de carvão. Viu o bicho-de-sete-cabeças morto, estendido no chão, e teve uma brilhante ideia. Ele também tinha lido no jornal a notícia que o rei publicou: casamento com a princesa com quem conseguisse livrar a moça do monstro perigoso. Não pensou duas vezes. Apanhou um facão, cortou as sete cabeças, pôs na carroça e foi para o palácio. No caminho ele sonhava:


- Vou mudar a minha vida. Vou casar com a filha do rei!


Chegou no palácio, pediu para o guarda ir chamar o rei e se apresentou como salvador da princesa. Mostrou as sete cabeças do monstro como prova. O rei ficou satisfeito e disse:


- Preparem um banho e melhores roupas para este moço. Ele vai ser meu genro. Palavra de rei não volta atrás.

 

E já mandou preparar uma grande festa para o noivado e casamento da filha. A princesa, muito tristonha, falou para o pai:


- Papai, não foi este moço que me salvou. Foi outro. Eu não quero casar com esse. Ele está mentindo.


O rei respondeu pra ela:


- Como não foi esse? Ele trouxe a prova, as sete cabeças do monstro que ele matou. Você não quer casar com ele porque ele é pobre. Que vergonha, minha filha! Mas, vai ter que casar, porque eu dei a minha palavra.


A princesa tentava explicar, mas o pai não mudava de ideia. Então o único consolo dela era chorar.

No dia seguinte, logo de manhã, começou a grande festa. O rapaz foi com o seu peixinho para porta do palácio. Sabendo do que estava acontecendo pediu ajuda ao amigo:

 

- O que eu devo fazer?

 

O peixinho estava chateado:

 

- Você devia ter me obedecido. Mesmo assim eu vou ajudar.

 

O peixinho cuspiu e quando o cuspe caiu no chão se transformou num cachorrinho malhado. E o peixinho continuou:

 

- Mande esse cachorrinho morder o falso noivo!

 

O rapaz obedeceu. Quando serviram a entrada do grande jantar, o noivo pobre pôs muita comida no prato. Mas quando foi levar a primeira garfada na boca, o rapaz deu ordem para o cachorrinho:


- Vai lá e derruba e morde aquele safado.


O cachorro atendeu. O noivo nem conseguiu comer. O cachorrinho deu uma mordida e ele derrubou seu prato. O homem soltou fogo pelos olhos. E gritava:

 

- Não tem ninguém neste palácio pra tomar conta e não deixar este cachorro vagabundo entrar no salão de banquete?


Mas, o cachorrinho continuou mordendo seguindo as ordens do seu dono.

Enquanto isso, a noiva, inconformada com aquele noivo falso, chorava o tempo todo. O rei começou a ficar desconfiado da situação. Quando o rapaz soube que ia começar o casamento ficou muito triste. E o peixe falou:

 

- Eu disse para você entrar com a princesa. Agora vá para o palácio e diga a verdade! Mostre suas provas!

 

O rapaz obedeceu. Entrou no palácio, gritando:


- Pára, pára, pára com esse casamento falso!


Aí, o rei percebeu que alguma coisa estava errada, voltou atrás e mandou parar a cerimônia. O rapaz que entrava pelo palácio perguntou:


- O que está acontecendo aqui?


O rei falou:


- É que esse noivo matou o bicho-de-sete-cabeças! E por causa disso ele vai casar com a princesa, minha filha.


O rapaz perguntou:


- O senhor meu rei tem a prova de que foi ele mesmo que matou o bicho?

- Sim, tenho.

- E o que é?

- São as sete cabeças do bicho.

- E nas sete cabeças as línguas estão inteiras?


O rei mandou verificar e viu que não estavam. O moço mostrou suas provas:


- São estas as partes da língua que faltam. E, estão aqui todas as sete.

 

Então o moço deu as sete pontas das línguas e pediu pra ir verificar se elas completam as línguas do monstro. E eram mesmo as pontas das línguas da fera. A princesa continuava dizendo para o pai:


- É esse moço aí, papai, é que me salvou.


O noivo pobre bufava de raiva. Queria matar o moço visitante. E o peixe disse baixinho ao rapaz:

 

- Mostre os pedaços da saia!

 

E o moço perguntou para o rei:


- O vestido da princesa, naquele dia que ela ia ser devorada pelo bicho, quantas saias ele tinha?


O rei respondeu:


- Eram sete saias.


Então, o moço tirou no bolso os sete pedacinhos das saias e pediu para o rei mandar ir verificar se não estava faltando um pedaço de cada uma delas. O rei chegou à conclusão de que tudo o que o moço falava era a pura verdade. Virou para o moço e perguntou:


- O que você quer que eu faça com esse noivo mentiroso?


O moço respondeu:


- Mande ele embora e que nunca mais volte aqui!


E foi isto que o rei mandou fazer. A festa no palácio continuou, mas desta vez com o noivo verdadeiro. Um vento forte bateu e levou os sete pedaços coloridos da saia. As cores iluminaram todo o reino. O casamento foi maravilhoso e a festa durou três dias.
No segundo dia de festa o belo rapaz foi até a beira de um rio, pegou o peixe, o beijou e jogou o pequeno nas águas dizendo:

 

- Adeus, meu bom amigo!

 

O peixe caiu naquelas águas e sumiu sem deixar rastro. O rapaz voltou para o palácio e viveu feliz com a princesa por muitos anos.

 

 

 

ADAPTAÇÃO DE AUGUSTO PESSÔA