top of page

CONTOS DE

ASSOMBRAÇÃO

A CIRANDA DOS OSSOS

 

Foi numa de sexta feira, o velho Chico Matoso ia voltando para casa. A estrada estava escura. No céu, só a lua iluminava o caminho. Mas era um luar manhoso que só iluminava um pouquinho. Não tinha nenhuma estrela. Uma sexta-feira estranha. A mulher do Chico, a Sia Balbinha, bem falou que ele não devia ficar andando pela estrada em noite de sexta. Principalmente, quando não tivesse estrela. Nessas noites, as visagens vêm da escuridão para assustar os homens.

O velho Chico foi visitar o seu compadre Bento. A prosa estava boa, ele foi ficando e nem viu a hora passar. Já era noite quando saiu da casa do seu compadre.

Para encurtar o caminho, o Chico Matoso resolveu entrar por uma picada. Já ia entrando na mata, quando lembrou as palavras de sua mulher sobre a sexta-feira. Seu coração bateu depressa, como se desse um aviso. Ele sentiu um calafrio, mas não era homem de recuar. E afinal de contas, ia ter medo de quê? O velho rezou baixinho e tocou o burro pela picada adentro.

De repente, o animal empacou. O Chico tocou as esporas com vontade, mas não tinha nada que fizesse o burro andar. O bicho estava gelado e paralisado. O homem olhou para o lado e viu uma sepultura. Sem perceber falou alto:

 

- Quem é que pode tá enterrado aqui, meu Deus, nesse lugar perdido na mata? Quem teria feito uma maldade dessa de enterrar alguém aqui?

 

O coração do velho Matoso foi ficando pequeno. Ele rezou baixinho e tentou seguir caminho. Mas o teimoso do burro nem se mexia. O Chico já estava decidido a largar o burro ali mesmo e sair correndo para casa, mas não teve tempo. O que ele viu, talvez ninguém acredite! A luz da lua batia agora com força na sepultura. O luar deixou de manha e estava iluminando tudo.

O velho Matoso tentou esporear mais uma vez o burro, quando ouviu um estalo forte e viu saírem da terra um monte de coisinhas brancas. Eram ossinhos que pulavam, batiam uns nos outros e rodopiavam como se estivessem dançando ao som de uma viola. Depois, de todos os lados, vieram outros ossos maiores, rodando e dançando da mesma maneira. De repente, o Chico ouviu um estalo maior e, de dentro da sepultura, saiu uma caveira branca como algodão, e com os olhos faiscando. Parecia que saia fogo dos olhos. A cabeça dava pulos como um saci. Os ossos começaram a dançar em volta da caveira, que parou de pular e ficou quieta no meio, dando de vez em quando grandes pulos no ar, e caindo no mesmo lugar, enquanto os ossos giravam em sua volta, batendo uns nos outros, como se dançassem uma ciranda maldita.

O velho Chico Matoso bem que queria fugir, mas não podia. Seu corpo estava como estátua, seus olhos estavam pregados naquela ciranda de ossos e os cabelos estavam em pé. Foi então que os ossinhos mais miúdos, dançando sempre, foram se juntando e formando dois pés de defunto. Esses pés não ficaram quietos e começaram a sapatear com os outros ossos numa roda viva. Os ossos das canelas, de um pulo, encaixaram em cima dos pés. Depois os ossos das coxas se encaixaram com os joelhos e, sempre dançando, se encaixaram com o resto formando duas pernas. E o quebra-cabeça continuou: os ossos dos quadris, as costelas, os braços, todos ossos que ainda faltavam foram pouco a pouco se juntando, até que o esqueleto se formou. Faltava só a cabeça.

O Chico Matoso viu então a coisa mais pavorosa do mundo: o esqueleto sem cabeça pegou a caveira e começou a jogar pra lá e pra cá, como se fosse uma bola. Depois, jogou para o alto igual a uma peteca. Jogava cada vez mais alto. Nesse sobe e desce a caveira fazia um zumbido horripilante. Até que o monstro sem cabeça jogou a caveira muito alto. E ela até sumiu nas nuvens. Depois abriu os braços como se esperasse. A caveira desceu rápido do céu, fazendo aquele zumbido e caiu direito no meio dos ombros. Fez um estalo danado, a caveira deu uma gargalhada e olhou para o velho Chico com seus olhos de fogo.

O burro e o Matoso estavam paralisados. O velho até sentia o coração do animal batendo forte. Os dois queriam sumir dali. Queriam até se enterrar se fosse possível, mas o pior estava por vir: aquele esqueleto-monstro começou a dançar em volta do Chico. Dando gargalhadas e rodopiando num balé terrível. Até que num estalo, deu um pulo, girou no ar e encaixou-se direitinho na garupa do Chico Matoso. O pobre do velho não conseguia nem gritar. O esqueleto esporeou e o burro saiu em disparada. E foram os três correndo e saltando.

Certo momento, o animal parecia voar por cima das árvores. O coitado do Chico não tinha coragem de abrir os olhos. Como não podia gritar, rezava por dentro para todos os santos que vivem no céu. O velho Matoso achava que aquele ia ser o seu fim. Sentia um calor muito grande, como se estivesse numa nuvem de fogo. Até que desmaiou.

Quando acordou, já era dia e ele estava na sua cama. A Sia Balbina é que contou que de manhã, bem cedo, o encontrou no terreiro, estendido no chão e desacordado. O burro ao seu lado, ainda selado, pastava calmamente. A porteira estava trancada e nem o velho Chico, nem Sia Balbina entenderam como o animal conseguiu entrar. No fundo o Matoso sabia que eles tinham chegado ali voando. O pobre do homem acordou com muitas dores, como se tivesse levado uma surra. A cabeça pesada e com aqueles estalos malditos no ouvido.  Demorou mais de um mês para aqueles barulhos terríveis saírem da sua cabeça.

O Chico mandou rezar duas missas e jurou que nunca mais saia de casa em noite de sexta-feira.

 

Adaptação de Augusto Pessôa

In BÁ E AS VISAGENS

Editora Escrita Fina

 

 

 

A VELHA POBRE

 

Lá para os lados da Amazônia, tinha uma Velha Pobre que morava numa caverna na serra. Só saia às sextas feiras pela meia noite. Ela era a protetora dos campos. Muitos dizem que ela não gostava de ser chamada de velha, porque, na verdade, nunca envelheceu.

Aqueles que já a encontraram na serra, onde, aliás, raras pessoas já a viram, dizem que ela é linda, mas má.

Tinha, quando queria, uma voz doce e agradável. A cara jovem e linda. Os olhos grandes e brilhantes. Os cabelos pretos, sujos e desgrenhados cobriam o rosto. As mãos e os pés eram de velha. Enrugados e cheios de calos.

Trabalhava sem parar, mas vivia esfarrapada e suja. E todo mundo a chamava de velha pobre.

Ela tinha muita vontade de ter filhos, mas não conseguia. Homem que passasse por sua caverna tinha que casar com ela. Se esse homem ficava com medo era transformado em pedra que rolava, rolava, até cair no precipício.

Se o homem aceitava casar, apesar da aparência de seus pés e mãos, ela mostrava o rosto escondido pelos cabelos sujos. Uma face de imensa beleza. Ela, então, tomava banho numa fonte de água pura com o fundo cheio de pedras preciosas. Quando mergulhava nessas águas os pés e mãos da velha pobre se transformam: ficam jovens, belos e delicados. Seus cabelos tornavam-se limpos, macios e lustrosos e o homem podia ter a mais bela noiva do mundo.

Mas, depois de nove meses, se não nascia o filho, (e ele nunca nasceu) a velha pobre se transformava: voltava a ser suja e esfarrapada. Com os cabelos grudentos e as mãos e pés deformados de dar medo. Então, era melhor o homem fugir depressa. Devia correr muito, senão podia virar pedra. Se a velha não o alcançava, ficava na gruta gritando de ódio. Logo se formava, no rio mais próximo, um redemoinho enorme. Engolindo tudo que passava por ele. Esse redemoinho, de uma forma mágica, era a cabeça da Velha Pobre.

 

Adaptação de Augusto Pessôa

In BÁ E AS VISAGENS

Editora Escrita Fina

O BOTO

 

É o que contam por aí: os botos se transformam em gente para vir a terra namorar as moças. Todo mundo sabe como acontece. Nas primeiras horas da noite, os botos viram homens. Sempre rapazes altos, brancos, fortes e bonitos. O povo que mora perto de rio sabe como é. Eles adoram festas onde dançam e bebem muito. Antes do nascer do sol, eles pulam na água e voltam a ser botos. Nadando por aí.

Os botos vêm a terra atrás das mocinhas novas. Eles dançam e brincam com elas. As mocinhas terminam de barriga. Menino que não tem pai, já sabe, é filho do boto.

Mas dá pra reconhecer os danados. É só prestar atenção: rapaz bonito que está numa festa e ninguém conhece. Que dança muito, bebe mais ainda e não tira o chapéu, pode escrever, esse é boto. É que eles se transformam, mas ficam com um furo no alto da cabeça. Usam o chapéu pra disfarçar.

Mas os botos não fazem só isso não. Eles são mágicos: moça e rapaz jovem e bonito que nada perto deles, pode se transformar em boto. Basta eles quererem.

Lá para os lados do Acre, eu conheci um homem chamado Zé Deodoro que quase perdeu um filho assim. O rapaz, que se chamava Ernesto, adorava nadar no rio junto com os botos. Por mais que o pai falasse, não tinha jeito. Rapaz bonito, os botos o encantaram e o pobre virou um ser do rio.

Na primeira noite que Ernesto se desencantou e voltou a ser homem, foi a um baile e conheceu uma moça linda. Conheceu Rosinha. Moça nova, bonita e faceira. Vestido de chita e flor no cabelo. Brincou com ela e a moça ficou de barriga. Quando o sol ia começar a nascer, o rapaz voltou para o rio e se transformou em boto. Mas aconteceu o inesperado: Ernesto se apaixonou por Rosinha. Queria voltar a ser homem para se casar com ela.

Zé Deodoro andava feito doido atrás do filho. Tinha certeza que o rapaz tinha sido transformado em boto. Um dia, na beira do rio, Zé Deodoro estava lamentando o destino do filho, quando um boto veio bem na beira. Era o Ernesto que conseguiu dizer para o pai que queria se desencantar. Mas para isso, Zé Deodoro precisa fazer uma coisa terrível: tinha que furar o olho do bicho com espeto ou bala. Bala podia matar, então Zé Deodoro pegou um galho seco e furou o olho daquele boto. Logo o bicho se desencantou e virou seu filho amado. E isso não é história não, conheço o Ernesto. Hoje ele é cego de um olho, mas está casado com Rosinha, tem quatro filhos e trabalha no comercio. Mas nunca mais tomou banho de rio.

 

Adaptação de Augusto Pessôa

In BÁ E AS VISAGENS

Editora Escrita Fina

CAIPORA

 

O Caipora é o coisa ruim, o cão, o tinhoso. Ele sempre muda de forma. Quem o encontra fica muito infeliz nos negócios e em tudo que quiser fazer. Tem, muitas vezes, aspecto humano para enganar melhor os pobres coitados que fazem acordo com ele. Quem faz pacto com o Caipora nunca se dá bem. Ele sempre engana e quando se sente enganado, mata.

Ele não gosta de caçadores. Quando tem Caipora na mata, ninguém pode caçar nas noites de sexta feira. Quem desobedece sofre muito. Ele até ressuscita os bichos que foram mortos sem seu consentimento. Para isso, usa umas palavras mágicas.

Geralmente ele fica nas encruzilhadas e nas curvas dos caminhos. Antes, ele só espantava quem estava a pé ou a cavalo. Fazia os cavalos darem pinote para jogar o cavaleiro no chão. Hoje em dia, tempos modernos, ele coloca pedras nas estradas e faz as pistas ficarem escorregadias, para fazer os carros e caminhões capotarem. Causa desastres destruindo as pontes.

Às vezes ele vai morar numa cidade ou aldeia. Vai junto com os caiporinhas que são uns diabretes. Os danadinhos entram no corpo das pessoas que vão brincar o carnaval.

Contam que o Caipora grande, o chefe dos pestinhas, também entra numa onça pintada. A bicha fica de noite tomando conta de uma ponte e não deixa ninguém passar. Tem um urro horrível. Parece uma vaca enlouquecida. Todo mundo tem medo, porque sabe que é o Caipora. Quando isso acontece, tem que chamar um rezador. O homem reza o lugar onde o maldito fica e tem que matar a onça com bala. Essa bala é especial. Fundida e rezada numa sexta feira da Paixão.  Esses homens rezadores não têm medo do Caipora. Fazem uma simpatia para espantar o medo dessas visagens: é só lavar a cara de manhã bem cedo com xixi e depois dar um nó na fralda da camisa. Ou pode também encher o umbigo com azeite e pó de fumo. Qualquer uma das duas serve pra espantar o medo.

 

Adaptação de Augusto Pessôa

In BÁ E AS VISAGENS

Editora Escrita Fina

CAPELOBO

 

Há muito tempo atrás, os índios não tinham contato com os brancos. Por isso viviam muito mais. Como não tinham as doenças dos brancos e se alimentavam muito bem, chegavam a passar dos cem anos. Quando isso acontecia, eles se transformavam: cresciam os cabelos, os pelos do corpo, as unhas. Os dentes também cresciam e ficavam como presas afiadas. Viravam Capelobo. E assim transformados, não conheciam mais ninguém e iam viver na mata junto com os animais. Para matar a fome comiam os curumins, que são as crianças índias. Mas principalmente, se alimentavam do cérebro dos caçadores ou de qualquer homem que encontrassem na mata.

Até hoje, lá na floresta Amazônica, tem Capelobo. O monstro tem um cheiro horrível. Mais forte que o odor do alho. E é através desse perfume maldito que os caçadores sabem que a fera está rondando. Quando sentem esse cheiro forte, fogem com medo de serem devorados.

Mas tem um jeito de matar o Capelobo: é só atirar com flecha ou bala e acertar bem nos olhos ou no umbigo do monstro. Pode também tacar fogo nos pelos do bicho. Qualquer uma dessas coisas acaba com a fera. Mas quem tem coragem?

 

Adaptação de Augusto Pessôa

In BÁ E AS VISAGENS

Editora Escrita Fina

 

 

 

 

 

 

A COBRA GRANDE

 

A Cobra Grande é uma serpente imensa, que tem os olhos de fogo como se fossem dois faróis. Vive no rio Amazonas e fica subindo e descendo pelas águas do rio-mar. Muita gente já viu o bicho enorme. Ela vem fazendo muito barulho, como se fosse o motor de uma lancha grande. Protege as águas do grande rio e todos os seus habitantes.

Às vezes, ela se transforma numa bela morena. Com um rosto tão bonito que parece feito por mandinga. Assim encantada, ela vai as festas. Gosta de dançar e se divertir. Mas não gosta de confusão, nem que fiquem perguntando de onde ela veio.

Meu avô me contou que, certa vez, numa festa de São João, que aconteceu lá no seu seringal, apareceu uma moça muita linda. Parecia que seu rosto era arte de feitiçaria. Ninguém conhecia aquela moça e todo mundo queria saber de onde ela vinha. Foi tamanha a curiosidade e a confusão que aquele mundão de gente fez, que a moça fugiu e se escondeu num paiol que ficava afastado.

Mais tarde, o pessoal ficou com vergonha de espantar a moça com aquela curiosidade toda. As mulheres foram até o paiol, para chamar a moça de volta a festa. Mas, quando elas abriram a porta do barracão, o que viram arrepiava os cabelos: era só cobra. Um imenso rolo de serpente que enchia todo o paiol até o teto. A mulherada saiu gritando de medo:

 

- É a Cobra Grande! É a Cobra Grande!

 

Os homens vieram acudir. Foi então que todos ouviram um estrondo igual ao do motor de uma lancha, ou de um trovão muito distante. A terra pareceu que tremia.  Os homens mais corajosos foram até o paiol e quando chegaram só viram o rabo da cobra sumindo dentro do rio.

 

Adaptação de Augusto Pessôa

In BÁ E AS VISAGENS

Editora Escrita Fina

COMPADRE DA MORTE

 

Diz que era um homem que tinha tantos filhos, que não havia mais ninguém para chamar para ser padrinho. Vai que lhe nasceu mais um menino. O homem então, montou em seu cavalo e saiu a procurar um padrinho ou madrinha para criança. Na curva da estrada, deu de cara com a Morte. Mas o homem não ficou com medo e convidou a Morte para ser madrinha de seu filho. A Morte aceitou. No dia do batizado, depois da cerimônia, a Morte chamou o homem num canto e disse:

 

- Quero dar um presente para meu afilhado. E penso, que o melhor presente é enriquecer o pai. A partir de hoje, você vai botar anúncio que é médico. Toda vez que for visitar um doente, vai me encontrar. Se eu estivar ao pé da cama, pode receitar até água que o doente ficará bom. Mas se eu estiver na cabeceira, não pegue o doente, porque esse é meu, esse eu levo.

 

E assim foi, o homem botou anúncio que era médico e logo enriqueceu. Não errava uma. Chegava na casa do doente, se encontrasse a Morte ao pé da cama, dizia:

 

- Esse eu curo!

 

Mas se a encontrasse na cabeceira, dizia:

 

- Podem preparar o caixão.

 

O homem nadava em dinheiro. Até que um Rei muito poderoso. Poderoso e cruel com quem não lhe fazia as vontades, chamou o homem. Seu filho, o jovem Príncipe, estava muito doente. O homem chegou e viu à Morte na cabeceira do Príncipe. O homem ficou desesperado, pensando na fúria do Rei se o Príncipe morresse. Chamou os criados e pediu que virassem a cama. Botando a cabeceira no lugar do pé e o pé no lugar da cabeceira. A Morte foi embora danada, e o Príncipe se salvou.

Tempos depois, a Morte apareceu ao homem e disse:

 

- Compadre, vim lhe convidar para jantar comigo.

 

O homem ficou desconfiado e disse que aceitaria o passeio, mas se a Morte jurasse que o traria de volta. E a Morte jurou. Depois pegou a mão do homem e fez um gesto mágico. Quando o homem deu por si, estava no castelo da Morte. Era um lugar grande, mas sombrio e lúgubre. Os dois jantaram e depois a Morte mostrou o castelo ao compadre. Estavam nessa, quando passaram por uma grande sala cheia de velas. Velas de todos os tamanhos: grandes, pequenas. Umas já se acabando, outras pareciam que tinham acabado de ser acesas, algumas já iam pela metade. O homem perguntou o que significava aquilo. E a Morte respondeu:

 

- Cada vela dessas é a vida de um homem. As que estão grandes, e parecem que acabaram de ser acesas, é o início da vida. A vela vai se acabando, até desmanchar. Então é a Morte.

 

O homem ficou curioso e perguntou sobre as velas de seus amigos. E a Morte foi mostrando.

 

- Este aqui.

- É fulano – respondia a Morte.

- E “tá” se acabando. E este?

- É sicrano.

- Ainda vai viver muito.

 

Até que perguntou pela sua vela. E a Morte mostrou um cotoquinho de vela, quase se apagando.

 

- Mas eu tô morre, não morre.

- É isso mesmo, compadre. Eu lhe trouxe para já deixá-lo aqui. Mas como você me fez jurar que eu o levaria de volta, assim farei.

 

Dizendo isso, a Morte fez um gesto mágico e o homem se viu no seu leito cercado por parentes chorosos. Na cabeceira da cama, lá estava a Morte. E o homem pediu:

 

- Morte, minha comadre, eu quero que você jure que só me leva depois de eu rezar um Pai Nosso. Você jura?

- Juro.

 

E o homem começou:

 

- Pai Nosso que estais no céu...

 

E se calou. A Morte disse:

 

- Continue a oração, compadre.

- Morte, eu disse para você me levar só depois que eu rezasse um Pai Nosso. Mas não disse quanto tempo eu ia levar pra rezar esse Pai Nosso.

 

A Morte foi embora furiosa.

O tempo passou. O homem ficou velho. Estava passeando por uma de suas propriedades onde havia um jardim que ele amava muito. Quando o homem chegou lá, viu que os bichos quebraram a cerca e destruíram o jardim. O homem ficou desolado e disse:

 

- Quem dera a Morte me levasse para eu não ver uma desgraça dessas!

 

Nem bem terminou de falar, a Morte pulou em cima dele e o levou.

A gente pode enganar a Morte uma, duas vezes. Mas na terceira e enganado por ela.

 

Adaptação de Augusto Pessôa

In BÁ E AS VISAGENS

Editora Escrita Fina

JOÃO SEM MEDO

 

Era uma vez um rapaz chamado João. E esse João não tinha medo de nada. Podia aparecer saci, cuca, mula-sem-cabeça, lobisomem... que ele não tinha medo. Por isso, ele era conhecido como João Sem Medo.

Ele andava por todo lado a procura de alguma coisa para ter medo. Só que ele não encontrava. Até que ele ouviu falar de um lugar, aqui perto, onde tinha uma casa mal-assombrada. Quem dormisse nessa casa amanhecia ou morto ou maluco. Era certo isso!

Pois o João foi até a rua onde ficava a tal casa e se informou com os moradores:

 

- É verdade que nessa rua tem uma casa que quem dorme lá amanhecesse ou morto ou maluco?

- É verdade verdadeira! É aquela casa ali!

 

E um dos moradores mostrou a casa a João. Era uma casa feia, escura e sombria. O João coçou a cabeça e falou assim:

 

- Pois olhe, eu vou dormir nessa casa hoje!

 

E os moradores tentaram tirar essa ideia maluca da cabeça do João:

 

- Que é isso, rapaz? Faça isso não!

- O senhor ainda é novo!

- Pode morrer... Pode ficar maluco!

 

Mas o João falou bem alto pra quem quisesse ouvir:

 

- Pois olhe, eu aposto com vocês que eu vou dormir nessa casa hoje e não vai me acontecer nada!

 

Quando os moradores ouviram a palavra “aposto” logo se interessaram. Juntaram o dinheiro da aposta e deixaram na mão de uma velha para ela tomar conta. Tudo arrumado, João Sem Medo foi até a tal casa. Nisso já estava anoitecendo. João entrou na casa. Era uma casa grande. Escura. Sombria. Cheia de teias de aranha. João foi entrando. A casa tinha vários salões grandes. Um maior do que o outro. Até que ele chegou no maior de todos os salões. Bem no meio do salão tinha um sofá grande. João olhou e achou que aquele sofá era o local ideal para ele dormir. Ele deitou e dormiu.

Daí a pouco, deu meia noite e o vento começou a soprar. Um sopro sinistro. Uuuuuuuuh! E lá de cima do teto, sabe se lá como, veio um grito terrível: Aaaaaah! Mas João não ficou com medo. Foi logo falando assim:

 

- Oh, rapaz, não tem o que fazer não? Fica aí gritando! Assustando o povo! Vai procurar o que fazer!

 

E lá do teto veio uma voz sinistra que dizia assim:

 

- Eu caio! Eu caio! Eu caio!

 

Assim mesmo. Repetiu três vezes. Mas João não ficou com medo. Foi logo falando assim:

 

- Mas precisa falar tanto que vai cair? Cai logo, pelo amor de Deus!

 

Ele falou isso e caiu mesmo. Dois braços brancos caíram do teto, sabe se lá como. Caíram e ficaram enroscados no meio da sala. Mas João não ficou com medo:

 

- Olha só: dois braços! E eu tenho medo de braço agora? Ficou até bonito! Uma escultura para enfeitar a casa! Eu vou dormir que é melhor!

 

João voltou a dormir e o vento voltou a soprar. Uuuuuuuuuuh! E lá do teto, veio de novo aquela voz sinistra que dizia assim:

 

- Eu caio! Eu caio! Eu caio!

 

De novo repetiu três vezes.  Mas João não ficou com medo. Foi logo falando assim:

 

- Ó, rapaz, você gosta de anunciar, hein? Devia trabalhar em loja! Cai logo, pelo amor de Deus!

 

Ele falou isso e caiu mesmo. Duas pernas brancas caíram do teto, sabe se lá como. Caíram e se embolaram com os braços no meio da sala. Mas João não ficou com medo:

 

- Olha só: duas pernas! E eu tenho medo de perna, por acaso? Ficou ainda mais bonito! A escultura está aumentando! Está enfeitando mais a casa! Eu vou dormir que é melhor!

 

João voltou a dormir e o vento voltou a soprar mais forte. Uuuuuuuuh! E lá do teto, veio de novo aquela voz terrível que dizia assim:

 

- Eu caio! Eu caio! Eu caio!

 

Aí o João se aborreceu:

 

- Ó, rapaz, mas vai cair a prestação? Cai logo inteiro, pelo amor de Deus!

 

O João falou isso e caiu mesmo. Caiu cabeça. Caiu tronco. Aquilo foi juntando no meio da sala. Juntou cabeça com tronco, juntou perna, juntou braço – fez um bonecão, grande e branco, que foi andando, todo desengonçado, para cima do João. Mas ele não ficou com medo:

 

- O que é isso, rapaz? Quer dançar? Vai procurar um baile! Eu quero dormir!

 

O bonecão então se transformou num fantasma branco e grande. O fantasma olhou para o João, com aquela cara horrível e deu um sorriso. O João não gostou:

 

- Está rindo de mim, palhaço?

 

E o fantasma falou assim:

 

- Muito obrigado. Eu estava aqui, enfeitiçado por uma bruxa e o senhor me libertou! Eu quero dar um presente!

 

O fantasma estendeu a mão e o João pegou naquela mão fria do fantasma. E a assombração foi puxando o João... Foi puxando... E o levou até o quintal da casa. Era um quintal grande. Cheio de árvores secas e retorcidas. No meio do quintal ficava a maior árvore. Toda seca e retorcida. O fantasma levou o João até lá, apontou para o chão e PUFF! Sumiu. E o rapaz falou assim:

 

- Esse camarada apontou para o chão? Ele quer que eu cave esse chão e eu vou cavar!

 

Ele pegou uma pá e começou a cavar. Cavou. Cavou. Até que bateu numa coisa dura. Cavou mais e começou a puxar. E lá de dentro saiu um caixão de defunto preto e grande. O João abriu o caixão e encontrou um tesouro: ouro, prata, pedras preciosas. O rapaz estava rico. Nisso o dia foi amanhecendo e os moradores da rua já estavam lá na porta da casa, achando que o João tinha morrido ou ficado maluco. Mas ele apareceu na varanda todo pimpão. O João Sem Medo venceu a aposta. Juntou o tesouro com o dinheiro da aposta e ficou mais rico ainda. Comprou a casa. Mandou reformar e diz que ele está morando lá até hoje!

E acabou a história!

 

Adaptação de Augusto Pessôa

In BÁ E AS VISAGENS

Editora Escrita Fina

LOBISOMEM

 

O Lobisomem é um bichão grande, meio homem, meio fera. Na verdade, ele é um homem caçula de sete filhas. Nas noites de lua cheia, ele vira o monstro. Arranca as suas próprias roupas e dá um monte de nós nelas. Depois, a pele dele vira do avesso e a fera sai correndo até chegar numa igreja. Chegando lá, ele corre para outra igreja. Quem se coloca no seu caminho é estraçalhado. Mas tem um jeito de se livrar do monstro. Se você encontrar um lobisomem pelo seu caminho, basta fechar bem os olhos, a boca e esconder as unhas das mãos e dos pés. É que essas visagens só conseguem ver a gente pelo branco dos olhos, dos dentes e das unhas.

A fera fica a noite toda correndo de igreja para igreja. Quando amanhece o dia, ele tenta voltar para o início, onde estão suas roupas. Mas, às vezes, não consegue e acorda no meio da rua, pelado e sem lembrar de nada que aconteceu.

Mas tem um jeito de acabar com o encantamento maldito. É só desatar todos os nós das roupas dele, que o monstro desencanta e volta a ser gente.

Conheci uma professora que contou que o homem casado com sua avó tinha essa sina. Na cidade, onde a avó da professora morava, corria o boato que tinha lobisomem. O monstro já tinha estraçalhado uns três valentões. Todo mundo ficava com muito medo de sair nas noites de lua cheia.

A avó tinha uma saia que ela gostava muito. Era uma saia xadrez, vermelho e preto. O marido dela também gostava e a elogia muito quando ela usava.

Numa noite de lua cheia, ela colocou a saia e pediu para o marido não sair por causa do lobisomem. O homem riu muito, disse que aquilo era bobagem, que precisava encontrar com os amigos no botequim e só voltaria no dia seguinte. Saiu.

Mas a mulher ficou desconfiada daquilo. Esperou um tempo, foi até a casa do lado e pediu que a vizinha a acompanhasse até o botequim. Pra ver se seu marido estava lá mesmo. Chegaram lá e não encontraram ninguém. O botequim estava até fechado por causa do medo do lobisomem.  As duas resolveram voltar para casa. Estavam no meio do caminho quando escutaram um uivo terrível. Olharam para trás e viram o monstro correndo na direção delas. Apavoradas elas apertaram bem as mãos para esconder as unhas, fecharam a boca e os olhos. A fera parou em frente a elas e ficou cheirando as suas saias. A avó da professora abriu só um pouquinho um dos olhos e viu o monstro. Com isso, o lobisomem pode ver um pouco e começou a morder a saia da mulher. Apavorada ela fechou bem os olhos e rezou um pai nosso em pensamento. O monstro cheirou mais um pouco e foi embora correndo. As mulheres fugiram apavoradas. Quando estava em casa, a avó da professora viu que a sua saia estava toda rasgada.

No dia seguinte, o marido voltou. A mulher contou tudo o que tinha acontecido de noite e o homem deu uma gargalhada. Ria muito dizendo que aquilo era uma bobagem. Nas gargalhadas de boca aberta, a mulher pode ver, entre os dentes do homem, os fios de sua saia xadrez. Com muito medo inventou que tinha que ir à casa da vizinha e foi embora da cidade, com a roupa do corpo, para nunca mais voltar.

 

Adaptação de Augusto Pessôa

In BÁ E AS VISAGENS

Editora Escrita Fina

MANÉ GALOPINHO

 

Isso aconteceu há muito tempo atrás. Contam, lá no interior do Rio de Janeiro, que o Mané Galopinho era um sujeito arruaceiro. Vivia criando confusão com todo mundo. Bebia e brigava. Depois montava em seu cavalo e saia derrubando e quebrando as coisas pela rua. Ninguém na cidade gostava dele porque era o cão em forma de gente.

A mãe dele vivia triste com esse comportamento. Na rua, o povo já virava a cara para ela. Achavam que a culpa desse desatino era dela. A pobre mulher vivia cabisbaixa. Ela pedia para o filho melhorar o comportamento, mas ele nem dava importância e continuava aprontando.

Até que ela se encheu. Uma noite, o Mané Galopinho ia saindo de casa, para mais uma farra daquelas, quando a mãe falou:

 

- Mané, não quero que você saia hoje! Chega de tanta confusão!

 

O danado, que não respeitava ninguém, nem a própria mãe, deu uma gargalhada dizendo:

 

- Não enche, mãe! Eu faço o que eu quero!

 

Mas a mulher estava realmente aborrecida:

 

- Você não vai sair e ponto final!

 

Ela disse isso e foi fechar a porta. Mas o Mané empurrou a mãe e ainda xingou a pobre senhora. A mulher, caída no chão, jogou uma praga no filho:

 

- Se você sair, vai virar uma visagem! Vai ficar grudado nesse cavalo, por toda a eternidade, vagando pela noite fazendo arruaça!

 

O Mané nem ligou. Montou no seu cavalo e já ia saindo, quando sentiu o corpo todo estremecer. Quis pular do cavalo, mas não conseguiu. Estava grudado. A pele ficou diferente, como de alma de outro mundo e o cavalo saiu em disparada. Correu... correu... até que sumiu na noite.

Até hoje ele anda pela cidade. Sempre de noite. Faz muita bagunça: derruba as latas de lixo, quebra as coisas na rua e assusta todo mundo. Muita gente de fé já ouviu o barulho do galope de seu cavalo. E tem até aqueles que já viram, com os próprios olhos, o Mané Galopinho cumprindo a sua terrível sina.

 

Adaptação de Augusto Pessôa

In BÁ E AS VISAGENS

Editora Escrita Fina

bottom of page